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Se Hitler não fosse um poeta…

16/01/2017 - 11:02, Opinião

Costumo estar sempre a citar a criatura quando quero falar sobre storytelling.

Por Edson Athayde

Costumo estar sempre a citar a criatura quando quero falar sobre storytelling. Ao conceber a “Poética”, Aristóteles costurou as regras da dramaturgia que usamos até hoje. Também dele é o tratado “Retórica”, os fundamentos sobre como usar a linguagem como ferramenta de convencimento ou, se preferir, a arte do discurso como forma de persuasão. Claro que não foi Aristóteles que inventou a retórica. Ele apenas teceu leis sobre o tema que ainda são úteis nos dias que correm. Nem é preciso que tenhamos lido o grego. De maneira quase intuitiva percebemos quem é bom ou mau orador, quem argumenta com clareza ou não, quem usa a escrita como um arma de conquista ou de afastamento. Tenho pena que a retórica não seja uma cadeira obrigatória no nosso sistema de ensino desde o jardim-escola. Em vez de mesas de snooker e massagens, as empresas modernas deveriam fornecer aulas de retórica grátis aos seus funcionários.
Aos políticos, aos gestores públicos e privados deveria ser exigido um diploma de retórica avançada.

Dói-me o ouvido quando vejo um deputado, um ministro ou um CEO de empresa a esgrimir argumentos bisonhos para vender ideias bizarras.

As redes sociais poderiam ser bem diferentes se as pessoas tivessem conhecimentos rudimentares sobre retórica. Haveria menos confusão, menos gente a confundir opinião com argumento, bate-boca com discussão.

Os tribunos digitais costumam encerrar os seus posts com frases do tipo: “É essa a minha opinião, se não concorda, o problema é seu.” Ou seja, demonstram a segurança e a capacidade argumentativa de uma criança de quatro anos.

Chamar alguém de feio, burro, vigarista, comuna, fascista ou qualquer outra palavra em forma de xingamento nada tem que ver com retórica. É só despreparo e destempero mesmo. Há um meme que anda a circular por aí com um glossário básico sobre alguns conceitos úteis no debate de ideias.
Reproduzo alguns:

1) Ad Hominem – Quando se ataca a pessoa, e não o argumento: “O deputado propôs uma lei a aumentar o imposto sobre o álcool. Mas ele bebe!”
2) Falso Dilema – O exagero, a falta de meio-termo: “Se és a favor do aborto, então apoias o assassinato de crianças.”

3) Inverter o Ónus da Prova: “Deus existe. Se acha que não, prove o contrário.”

4) Post Hoc Ergo Propter Hoc – Uma coisa é que causa a outra: “Hitler era poeta. Veja só o resultado…” Ou como diria o meu Tio Olavo: “Acreditar que não dá para trocar de opinião sem mudar de princípios é como achar que não dá para trocar de calças e manter as pernas.”

Sobre o cronista Edson Athayde formou-se em Publicidade na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1991, decidiu radicar-se em Portugal, tendo começado por trabalhar para a agência Young & Rubicam Portugal como redactor júnior. No entanto, o seu talento valeu-lhe uma rápida ascensão, e dois anos depois já era vice-presidente da empresa. O gosto pela publicidade fez com que em 1996 entrasse para a Lusomundo, e até 1998 foi administrador do Diário de Notícias, pertencente ao grupo, assim como se responsabilizou pelo marketing do próprio jornal e das estações de rádio FMRadical, XFM e TSF. Em 1998, Edson Athayde fundou a sua própria empresa, a Edson Comunicação. Através dela criou a Portal.pt, com a qual se envolveu no marketing na Internet.

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