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Uma África inovadora para um futuro melhor

06/02/2017 - 11:16, Opinião

Apesar de uma década de forte crescimento e bilhões de dólares em investimentos, a África Subsariana enfrenta uma série de desafios sociais e económicos, que são muitas vezes entrelaçados.

Por Teodoro Poulson 

Estes desafios vão desde o acesso a educação, água potável, electricidade, a criação de emprego e problemas em infra-estrutura pública. Portanto, dado o cenário, não existem métodos infalíveis ou soluções simples para estes problemas. Existe, no entanto, uma palavra que pode inspirar milhões de africanos e levá-los a desempenhar um papel de liderança na construção de um futuro melhor para os mesmos e para os seus filhos – a palavra em questão é inovação. Entretanto, a inovação não acontece por acaso.

Para tal, os governos devem apoiar os jovens empreendedores. A região necessita de reformar as suas estruturas económicas a fim de facilitar o empresariado. A comunidade internacional também tem um papel fulcral a desempenhar. Desta forma, existem vários mecanismos que podem facilitar a colaboração entre governos estrangeiros e entidades globais, uma destas formas é através de um acordo justo sobre as mudanças climáticas.

A conferência COP21 que decorreu no ano passado em Paris pôs ao cimo duas ameaças ao crescimento económico de África com relação ao aquecimento global. A primeira é que, ao solicitar aos países africanos que reduzam significativamente as suas emissões de carbono, estar-se-á a pedir que a região se comprometa com o seu desenvolvimento económico. Não se deve esperar que os países africanos desfaçam os danos causados pelas economias mais desenvolvidas, ao longo dos últimos duzentos anos, ao desacelerar o seu próprio progresso.

Além disso, a mudança climática afecta, e continuará a afectar, desproporcionalmente África através de inundações, seca e fome. É com certeza uma injustiça que o desenvolvimento africano venha a ser comprometido desta forma e que as suas comunidades, indústrias e economias sejam terrivelmente afectadas pelo aquecimento global. François Hollande, ao comentar no COP21, afirmou que o mundo tem “uma dívida ecológica…” com África. Esse apoio vocal vem de forma oportuna, e seria justo que o último acordo da COP21 reiterasse o direito ao apoio internacional no desenvolvimento de novas tecnologias para os países em desenvolvimento. Caso a comunidade internacional reúna tais obrigações, os inovadores africanos terão maior oportunidade de construir negócios sustentáveis que sejam financeiramente viáveis capazes de competir a nível mundial.

A conferência COP21 também concedeu a África uma oportunidade de mostrar inovações vindas do continente que oferecem soluções para os desafios causados pelas alterações climáticas. Muitas dessas tecnologias oferecem novas maneiras de fornecer água potável e energia às comunidades rurais mais vulneráveis. Entretanto, a boa notícia é que África tem uma das populações mais jovens do planeta. Os jovens africanos já demonstraram ser tecnologicamente ágeis, o que é favorecido pela alta penetração de telefonia móvel no continente e uma classe média crescente que demanda por produtos e serviços de alta qualidade. Em suma, África tem as condições adequadas para o crescimento económico – tudo o que é preciso é vontade política para fazer isso acontecer.

Do outro lado da região, uma das áreas mais importantes para a inovação é a agricultura, em parte porque o sector joga pelos pontos fortes do ambiente natural, e também emprega milhões de pessoas. África precisa de encontrar novas soluções de forma a combater o profundo impacto que as alterações climáticas terão sobre a produção agrícola. Organizações como a Gorta-Self Help Africa apoiam comunidades agrícolas rurais em toda a região subsariana, ajudando-os a encontrar novas formas de cultivo, que inclui o desenvolvimento de variedades de culturas tolerantes a climas secos e tecnologias ‘inteligentes ao clima’ que ajudam a manter a humidade no solo.

Inovações como estas, produzidas localmente, reduzem a dependência na compra de tecnologia estrangeira, criam empregos e ajudam na criação de cadeias de abastecimento, que são os blocos de construção de um sector de PME diversificado. O acordo COP21 também exige que os países desenvolvidos contribuam com capital, a fim de fornecer as nações mais pobres com pelo menos 100 bilhões USD por ano até 2020.

É dentro deste contexto, de apoio internacional, que jovens inovadores podem explorar o seu potencial, o que não se limita a agricultura ou ambiente.
A inovação tecnológica tem ajudado a transformar as economias nacionais e a vida da população em todo o continente. Um dos exemplos são as transacções financeiras feitas via mobile que têm ajudado milhões de africanos sem conta bancária a entrar no sistema bancário ou a fazerem compras online através de um simples telefone celular.

A inovação em África não se limita apenas ao agronegócio ou a transacções financeiras móveis. No sector da saúde, por exemplo, as novas tecnologias estão a ser criadas, e as mesmas têm um alto impacto social na prevenção e tratamento de doenças. Professor Lesley Erica Scott ganhou o Prémio Inovação no Africa’s Special Prize for Innovation pelo desenvolvimento do Smartspot TBCheck – um dispositivo que avalia o funcionamento das máquinas de diagnóstico de TB.
Esta é uma tecnologia que vai ajudar muito no diagnóstico preciso de TB e ajudar a conter a epidemia em África.

O desafio para esses inovadores é com certeza o acesso ao capital. Numa região onde as economias e os sistemas financeiros são díspares, o que significa que a África subsariana não tem os mercados de capitais necessários para apoiar o empresariado. No entanto, existem opções. Alguns países, como Angola, estão a avançar com as reformas económicas que incluem parcerias público-privadas. Angola também lançou um fundo de capital de risco estatal, FACRA, que actua como um canal entre empresas angolanas em crescimento e investidores estrangeiros. Através do FACRA, empresas e investidores de países desenvolvidos têm a oportunidade de conhecer empresas angolanas financeiramente viáveis e em pronto crescimento, proporcionando assim às empresas estrangeiras oportunidades de investimento e formas de os empresários angolanos terem acesso ao capital de que tanto necessitam para crescerem.

À medida que caminhamos num ano de grande incerteza económica – onde o baixo preço do petróleo e a queda no preço das matérias-primas são as novas normas – as nações da África Subsariana e a comunidade internacional devem avançar e fazer todo o possível para apoiar os inovadores africanos. Os países que, por muito tempo, dependem das exportações de petróleo precisam de diversificar as suas economias, caso pretendam criar novos postos de trabalho e um sector de PME que apoia o crescimento económico nacional. Os mercados de capitais devem amadurecer, os bancos devem ser liberalizados, os governos devem encontrar novas formas de estimular a inovação, e a comunidade global deve continuar a desempenhar o seu papel no processo.

África tem o que é preciso para criar um futuro que a ajude a cumprir as suas obrigações face às alterações climáticas e apoie os inovadores que vão continuar a construir economias robustas. O crescimento económico e a responsabilidade ambiental estão correlacionados, no entanto, a fim de alcançar soluções africanas para os desafios africanos, o mundo inteiro deve unir-se.

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