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“As acções determinam o destino” – Artur Miranda

13/08/2015 - 10:48, Capital Humano, Uncategorized, Upgrade

O primeiro angolano a representar a Coca-Cola no continente africano é um homem crente e esforçado. Aos 45 anos, fala da sua carreira e de como se mantém na liderança.

Por Aylton Melo | Fotografia Njoi Fontes

Por um triz não nasceu em Malanje, terra natal da matriarca da família de onde provém. Artur Miranda nasceu em Luanda, onde viveu até aos 6 anos. Em 1976, a mãe leva-o para Portugal, onde fez toda a formação académica e começou a sua carreira.
“A minha mãe foi a primeira influência. Uma pessoa que me apoiou muito e que, sendo africana em Portugal, teve de redobrar esforços para conseguir o que conquistou”, disse.
O seu percurso profissional direccionava-o para lugares de liderança. Foi, entre outras funções, gestor de produtos da Microsoft, IBM e outras marcas. Trabalhou na área de IT da HP até ser contratado pela maior empresa de consumíveis diversos do mundo, a Procter & Gamble International, entre 1997 e 2006.
Nesse período foi responsável pela quadruplicação das vendas e fortalecimento da imagem em Portugal. “Foi uma grande escola para mim, onde aprendi quase tudo o que sei sobre gestão, marketing, estratégia e controlo”, confessa.
Admite que no caminho, ao escolher por uma empresa e outra, as boas relações que gerou por onde passou recomendavam-no às empresas, eram pessoas que viam o seu trabalho, gostavam e ofereciam-lhe opções de mudança. Conta que toda a sua carreira se baseou nisso. A única excepção foi a Procter & Gamble, cujo ingresso acontece depois de responder a um anúncio.
Outra experiência profissional digna de nota foi quando trabalhou para a casa de alta-costura Pierrre Balmain, em Paris, por um ano. Em 2007, o estado de saúde da esposa fê-lo tomar uma escolha de carreira que determinou o seu curso de vida, deixou o mundo da moda.
Uma ligação telefónica bastou para conseguir o lugar de director-geral da Panasonic em Portugal. Aí foi responsável pelos planos de recuperação do grupo de electrónica de consumo, reforçando o seu posicionamento. Mas fica somente um ano, porque outra multinacional, a LG, lhe fez uma proposta irrecusável.
“Foi a única vez na minha vida em que mudei de emprego por causa de dinheiro. A LG chegou e duplicou-me o salário [risos].”
Conta que gostou muito de estar na LG, aprendeu muito com os coreanos, por serem muito inteligentes. Mas descreve a cultura de trabalho como extremamente agressiva, “para eles, o trabalho é vida, dormem no escritório. Ao contrário de nós, que trabalhamos para viver”, caracterizou o gestor. “Nessa altura tive de tomar uma decisão difícil. A minha esposa dizia-me que estava a ter muito sucesso, mas não gostava daquilo.” É nesta altura que surge o convite de um amigo para regressar ao País e abraçar um novo desafio.

De volta às origens
Sempre manteve contacto com os familiares que vivem no País e, com isso, o desejo de um dia fazer também alguma coisa na sua terra natal. O que acabou por acontecer, alguns anos mais tarde na sua carreira, ao aceitar o convite de regressar a Angola para dirigir a Luanday, uma empresa do grupo Refriango em 2009.
“Ao chegar e ver o País num processo de reconstrução, a Angola que tinha na mente era diferente em tempos de criança”, lembra. Recorda-se ainda que, ao assinar como director da Luanday, empresa do grupo Refriango, combinou que não ficaria para além de um ano. Ao fim de pouco mais de um ano, já tinha mudado de ideias. A Refriango fez-lhe uma nova proposta para montar uma base em Portugal, explorar e desenvolver outros mercados no continente africano.
A carreira de Artur Miranda está recheada de curiosidades. Em 2009, o grupo Refriango já era o principal concorrente da Coca-Cola em Angola, marcava pontos na luta contra este gigante norte-americano dos refrigerantes. Mas, perto do ano de 2010, a Panasonic voltava a fazer-lhe uma nova proposta, desta vez do Japão, para auxiliar a filial em Madrid.
Sentiu-se como um jogador de futebol, com várias propostas em mão. Para “piorar”, a Coca-Cola liga-lhe da Turquia com uma proposta de trabalho para uma posição inédita, a de country man para o mercado nacional.
“Com a experiência da Refriango, conhecendo o forte e as fraquezas que eu identifiquei na Coca-Cola, não era difícil fazer esta escolha”, disse.
Artur Miranda estabeleceu-se na Coca-Cola Company em Angola como o primeiro director angolano da multinacional, por cinco anos. “Tirámos a empresa de um problema financeiro grave, devido a má gestão”, assegura.E, depois do objectivo alcançado, a Coca-Cola fez-lhe um upgrade: nomeou-o director regional para as operações na África subsariana. O regresso às origens foi um sucesso, mas tal implicava ter de sair de Angola. O escritório corporativo Business United, na África do Sul, governa estrategicamente toda a área subsariana, motivo que o fez fixar residência em Joanesburgo até agora.

A influência da religião
Artur Miranda acredita que construímos o nosso destino com esforço e trabalho e que Deus pode ajudar nessa construção. “Não acredito que eu tenha sido predestinado para ser isso ou para aquilo, acho que as minhas acções e escolhas determinam mais o meu destino do que predestinações”, disse. E acrescenta: “Deus não escolhe ninguém para ser o que somos e viver com isso, para toda a vida. Não faria sentido.”
Serviu como missionário da Igreja. “Isso deu-me uma base moral para o resto da vida, curiosamente, a seguir vou para o serviço militar, que é o oposto. Aqui, sim, acho que Deus quis ensinar-me alguma coisa”, reflectiu.
Artur Miranda é casado e tem dois filhos a quem dá liberdade de escolha de serem aquilo que quiserem.

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