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Gulbenkian, “O arquitecto visionário”

03/09/2015 - 14:18, + Mercado, Life & Arts, Uncategorized

A vida de um arménio que nasceu em Istambul, morreu em Lisboa e que se confunde com a história da indústria do petróleo.

1. As Bolas de Sabão
Édouard Manet - O modelo é Léon-Édouard Koëlla, enteado do pintor.
2. Diane
Jean-Antoine Houdon - pertenceu a Catarina II, da Rússia, e foi considerada excessiva e inconvenciente, uma vez que a deusa foi esculpida nua
3. Sala do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Tripadvisor Travellers Choice 2015

Por Ana Maria Simões | Fotografia DR

Calouste Gulbenkian nasce em 23 de Março de 1869, na parte oriental de Istambul, e cresce na transição do século XIX para o XX, quando a indústria do petróleo era ainda embrionária. “O arquitecto do equilíbrio geopolítico”, como gostava de se sentir, é na verdade o fundador e percursor da exploração do petróleo no Médio Oriente.
Enquanto alemães, britânicos e holandeses lutam pelas concessões petrolíferas do Médio Oriente, o jovem Calouste, aproveitando os seus conhecimentos e as suas origens – onde se cruzam a nobreza arménia e persa – e obtém do governo turco o que as potências estrangeiras não conseguem – a exploração do petróleo do Império Otomano.

O senhor 5%
Pouco antes da Revolução dos Jovens Turcos, em 1908, o sultão concedeu a Calouste Gulbenkian a prerrogativa de realizar prospecções em todo o território mesopotâmico.
Em 1910, é fundado o Banco Nacional da Turquia com o objectivo de agilizar o desenvolvimento económico do país. Gulbenkian é nomeado conselheiro do novo banco. Em 1912, cria a Turkish Petroleum Company – TPC. A nova companhia tem quatro parceiros: a Royal Dutch-Shell (25%), o Banco Nacional da Turquia (35%), o Deutsche Bank (25%) e Calouste Gulbenkian (15%). Por esta altura Gulbenkian deixará escapar uma importante concessão na Mesopotâmia, que ficará para a Anglo-Persian Oil Company, a companhia petrolífera que hoje conhecemos como Britsh Petroleum Company (BP). No entanto, graças à TPC, o Golfo Pérsico dava a conhecer ao mundo o seu imenso potencial em reservas petrolíferas. Gulbenkian revelava-se como empreendedor e, sobretudo, como um excelente negociador, capaz de congregar em interesses comuns os ingleses da Shell, os alemães do Deutsche Bank e o governo turco, ao mesmo tempo que trava uma maior progressão da companhia rival, a Anglo-Persian Oil Company, que cobiça desassombradamente a posição do arménio na TPC. Quem acabaria por ceder a sua posição é o governo turco, e em 1914 a TPC configura-se desta forma: Anglo-Persian Oil com 47% das acções, Royal Dutch-Shell com 22%, e o Deutsche Bank com 25%. E Calouste Gulbenkian com 5% – e a partir daqui se fará a sua história, a história do “Senhor 5%”.
Entretanto, rebenta o primeiro grande conflito do século XX – a I Grande Guerra. Em França, Calouste Gulbenkian, em plena guerra, lança a ideia de um “Comité Général du Pétrole”, que mais tarde, em 1924, culminará com a criação da Compagnie Française des Pétroles, a actual Total. Como estamos a ver, na origem de todas as principais companhias petrolíferas dos nossos dias, está… Calouste Gulbenkian.
No pós-guerra, Gulbenkian participa nas negociações que levam ao fim do Império Otomano e à definição das fronteiras entre a Turquia e o Iraque, de olho no petróleo. Em 1925, o governo iraquiano ratifica a concessão petrolífera à TPC. É nesta altura que os americanos, até então meio distraídos, concentram também as suas atenções no Médio Oriente. Rapidamente, Gulbenkian, num jogo que só ele sabe fazer, integra os americanos na TPC, que passará a designar-se como Iraq Petroleum Co. Ltd., incorporando a Near East Development Corporation, da qual saiu a actual… Exxon Mobil. Ainda tem dúvida do papel de Calouste Gulbenkian na forma como se organiza, hoje, a indústria petrolífera? Os grandes gigantes do petróleo iniciam as suas actividades por esta altura nos territórios da Turquia, Jordânia, Síria e em toda a Península Arábica, à excepção do Kuwait. E de tudo isto, Calouste Gulbenkian recebia a ‘parcimoniosa’ comissão de 5%.
Mas há demasiados interesses em jogo, o ouro negro é irresistível, o recente conflito mundial – a I Grande Guerra – não tornou os homens mais sensatos, e todos disputam recursos petrolíferos. Gulbenkian, o negociador por excelência, traça, com mão de mestre, a famosa Linha Vermelha que inclui os territórios do Barém, o Catar, a Arábia Saudita e os Emirados. De fora, o Kuwait, para os americanos que estavam já no terreno.
E já que falamos das empresas que foram criadas nesta altura e que ainda são relevantes nos nossos dias, falta uma: a Partex, que tem origem na incorporação dos 5% da Iraq Petroleum Company numa holding que tem o nome de Participations and Explorations Corporation, uma sociedade assente em Londres com a sede social no Panamá.
Apesar de tudo isto, detestava que o tratassem como um negociante de petróleo, reivindicava enfurecido: “Não, não sou um comerciante de petróleo! Sou arquitecto de empresas!” Não sabemos exactamente em que língua o terá feito, uma vez que Gulbenkian falava turco, arménio, persa, francês e inglês.

“Só o melhor é suficientemente bom para mim”
Decorria o ano de 1942, II Guerra Mundial, e num dia de Abril de clima suave, Calouste Gulbenkian chega a Lisboa acompanhado pela mulher, Nevarte, a secretária e a dama de companhia, Mme. Theis, o seu massagista russo e o chefe de cozinha oriental. Chegaram de Rolls-Royce e instalaram-se no Hotel Aviz na companhia de uma dúzia de gatos e muitos mais pássaros. Gulbenkian tem 73 anos e fará em Lisboa o testamento da fundação que assumirá uma importância ministerial. Durante a guerra, os ingleses confiscaram-lhe os seus 5% na Iraq Petroleum Company, mas não a sua estimável colecção de arte que virá também para Lisboa, mesmo com os americanos a dizerem que construiriam um museu em Washington para acolher o magnífico tesouro artístico reunido por um determinado e requintado conhecedor para quem “só o melhor é suficientemente bom ”.
A Fundação Calouste Gulbenkian é das mais importantes fundações europeias, com activos na ordem dos biliões dólares. Com um quarto da sua riqueza assente em concessões petrolíferas no Médio Oriente – em Omar e nos Emirados Árabes, e participações em concessões no Cazaquistão, Brasil, Argélia e Angola.

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