Mercado

Maria do Céu Figueira: “Há novas abordagens de bancos europeus no nosso mercado”

29/05/2017 - 09:56, featured, Finanças, Uncategorized

A consolidação democrática e as perspectivas económicas nacionais vão gerar interesse de bancos europeus em instituições financeiras do País, defende a PCA do Banco BCS, que está optimista sobre o investimento externo em Angola.

Por Ricardo David Lopes | Fotografia Njoi Fontes 

Qual a actual estratégia e o posicionamento do BCS?

Nascemos com uma estratégia e um posicionamento muito bem definidos. A sustentabilidade assenta em pilares essenciais como o desempenho da actividade empresarial, contribuindo, activamente, para o progresso económico e social, e tendo em conta o impacto no meio empresarial, fomentando relações estáveis e de futuro com os principais grupos de interesse. O trabalho desenvolvido em equipa foi, precisamente, tornar reais estas duas determinações: foco na qualidade e personalização do serviço prestado. Dinamismo e força, os recursos humanos, técnicos e tecnológicos, combinados para alcançar as metas e objectivos dos clientes mais exigentes. Juntamos a qualidade, a confiança, a ética, a segurança, a transparência e inovação, e temos os nossos princípios de orientação.E, o que para nós é muito claro, prestar um serviço de excelência.

Qual o perfil dos vossos clientes?

O nosso posicionamento é, efectivamente, assente na exclusividade, que é apenas a nossa primeira vantagem, a primeira de algumas que fazem a diferença no panorama bancário, mesmo a nível internacional. Para garantir a atenção e a dedicação que cada cliente deseja, tivemos de optar por não massificar.
Não é possível ter quantidade e qualidade simultaneamente na área bancária, a menos que se criem áreas niveladas, que o passado recente demonstra não ser exequível com as vicissitudes que o meio atravessa. A personalização do serviço é a característica mais relevante no nosso relacionamento.

A segunda é a proximidade, que só se consegue com a disponibilidade dos nossos colaboradores, pois, no BCS, o local e o horário de atendimento são decididos segundo a conveniência do cliente, uma oferta inegavelmente escassa. O nosso atendimento é realizado em ambientes desenvolvidos para oferecer segurança e privacidade, com o máximo de conforto e, uma característica nossa, com sofisticação. Os princípios e a forma de actuação são adequados ao perfil dos nossos clientes private e corporate, que exigem sempre um relacionamento que ofereça um atendimento individualizado, assessoria financeira, bem como produtos e serviços diferenciados.

É possível fazer um balanço em termos de número de clientes?

Ao conhecer bem o seu cliente e ao estar próximo dele, o banco amplia a sua capacidade de oferecer produtos e serviços adequados ao seu perfil e abre espaço para a realização de mais negócios.

Assim, ganham as duas partes, pois são satisfeitas as necessidades dos clientes e é solidificado o seu relacionamento com o banco. Como resultado, temos conseguido captar uma parte significativa de clientes, através da recomendação de outros.

Contamos com mais de 1000 clientes activos, o que nos permite perspectivar um crescimento sustentado, à medida que formos alargando a base de penetração no mercado.

Em termos de expansão do BCS, quais são os objectivos?

O nosso plano de expansão contempla a abertura de centros em localizações estratégicas, para servir os clientes-alvo. Este ano, abrimos o Centro do Lubango e prevemos abrir mais três em Luanda e um em Benguela. Pretendemos ter uma dimensão nacional junto do sector produtivo, que é a base de riqueza de qualquer país, sendo certo que é uma das maiores riquezas de Angola.

Quais os principais desafios que são hoje colocados ao BCS, em particular, e à banca angolana, em geral?

Estamos focados em desenvolver e em consolidar a nossa operação, para superar as expectativas dos nossos clientes, bem como criar valor através de um conjunto de regras e procedimentos observados diariamente. Para isso, além de seguirmos escrupulosamente as orientações do Banco Nacional de Angola, asseguramos a adequação às melhores práticas internacionais, seja via contabilista, com formação internacional, ou as regras internacionais de compliance. Acreditamos que um banco não é só um negócio para os seus investidores, mas também uma responsabilidade sobre todos os clientes.

O cumprimento das regras de prevenção de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo evidencia um efectivo controlo na prevenção de crimes financeiros, prejudiciais às economias nacionais e internacionais que acabam por afectar a todos.

A exigência tem crescido…

As autoridades internacionais estão cada vez mais exigentes e obrigam a regras estritas em relação ao conhecimento de cliente, branqueamento de capitais, ou repatriamento de capitais.

O cumprimento escrupuloso destas regras é fundamental para nós e para todo o sistema financeiro angolano.

Como estão a lidar com a crise económica, financeira e cambial?

A crise é, para um gestor, uma oportunidade. Acredito até que é um teste de sobrevivência e de reconhecimento. Quando falo de gestores, falo também de instituições, e esta fase está a obrigar a melhor aproveitamento dos recursos e a um melhor planeamento dos investimentos prioritários.
O BCS, estando num segmento de grandes clientes corporate, tem responsabilidade acrescida no apoio aos clientes, para uma melhor adequação às novas exigências do mercado e consequente retorno para quem investe através de nós.

Como é a vossa política de concessão de crédito?

Obedece aos mais rigorosos critérios de selecção, para diluir o risco e manter a nossa solidez.

Temos apoiado projectos industriais estruturantes para o País e, nalguns casos, temos efectuado trabalhos de execução e assessoria na organização, montagem e negociação em joint ventures, bem como em estudos de avaliação de projectos de investimento.Temos angariado operações e recebido empresários que procuram o nosso conselho no desenvolvimento e expansão de projectos.

E de depósitos?

Inegavelmente, os depósitos são uma fatia importante do negócio bancário. Temos desenvolvido produtos específicos para aproveitar oportunidades que vão surgindo no mercado. Outro dos factores importantes na captação de recursos tem sido a rapidez de execução em operações de transferências no mercado interno, o que permite obter a confiança dos clientes para utilizarem o BCS na gestão da sua tesouraria dia a dia.

Que soluções estão a estudar ou a implementar para apoiar a economia angolana?

Implementámos uma estrutura orgânica vocacionada para o apoio e consultoria financeira que acompanha os clientes em todo o processo de desenvolvimento dos seus projectos, desde a definição do business plan ao project finance.

Estamos focados no crescimento da economia nacional, apoiando empresas e particulares a investirem em todos os sectores económicos, gerando valor para os nossos clientes e para a nossa economia.

Queremos ser agentes e gestores desta mudança pioneira no panorama económico angolano, sejam estes pessoais, profissionais ou corporativos.

Que tipo de projectos estão a apoiar neste momento?

Estamos a apoiar projectos estruturantes, no âmbito da agro-indústria, indústria mineira e indústrias de transformação, que permitem gerar riqueza para o País e reduzir a nossa dependência do exterior. Normalmente, são projectos inovadores e diferenciadores, com elevado nível de automatização de processos industriais e utilização de tecnologia de ponta, factores determinantes para o sucesso dos apoios. Clientes bem-sucedidos são, também, motivo de sucesso do banco, seja a nível de retorno dos seus accionistas, seja, sobretudo, a gerar mais dinheiro para alavancar mais projectos de sucesso.

Quais os principais produtos bancários que têm hoje e quais os que estão em estudo para implementar?

Como banca privada e corporativa, os produtos são desenhados segundo cada situação e necessidade de cada cliente ou projecto. Temos também, naturalmente, soluções mais standard,quer de financiamento , quer de poupança, as convencionais que todo o sistema financeiro disponibiliza. O crédito bancário concedido à economia e particulares em Angola voltou a subir depois de uma retracção.

Como se posiciona o BCS nesta matéria?

O compromisso com o desenvolvimento da economia faz parte do nosso ADN. Temos apoiado e mantemos, actualmente, o apoio a projectos estruturantes para a diversificação da economia, essencialmente no sector produtivo, o que mais se destaca pela necessidade e pelo apoio às políticas do Executivo. Continuaremos ao lado dos nossos clientes na procura das melhores soluções de crédito interno e externo. Somos uma parte activa e integrante na prossecução do desenvolvimento económico de Angola. O País tem recursos imensos e por explorar e tem o perfil para ser um exportador nato em vários sectores da economia, que não só a petrolífera e diamantífera.

Que medidas considera determinantes para que a economia e a indústria em Angola cresçam?

Nos últimos anos, começaram a ser implementadas diversas medidas que estão a produzir bons resultados no crescimento da economia e indústria, nomeadamente, a criação de comissões de acompanhamento e incentivos de diversa natureza para projectos estruturantes no sector produtivo. Há hoje muitos projectos bem estruturados em fase de implementação e outros já a produzirem resultados, com impacto na criação de empregos, redução das importações e aumento da autonomia produtiva nacional.

Os investimentos em infra-estruturas – aeroportos, portos marítimos, caminhos-de-ferro e vias de comunicação – e em capital humano – formação de pessoal qualificado – estão a fazer que Angola se torne numa plataforma internacional giratória e aglutinadora de negócios em África. Deverá ser aprovada, em breve, a legislação que impõe o pagamento de impostos em USD a indústrias que tenham mais de 60% das receitas em moeda estrangeira, o que se irá aplicar às petrolíferas.

Qual o impacto que esta medida terá na banca?

Em qualquer país, há sempre rumores de alterações, mas só nos podemos debruçar sobre o que a legislação nos oferece. Sobre o sector petrolífero, o que nos apraz enaltecer é a recuperação evidenciada nos preços. Seja no contexto actual, seja noutro ainda não legislado, o resultado é sempre positivo para as finanças do País, face a 2015. Os investimentos em curso no sector off-shore e a estabilidade social permitem-nos antever que, a curto prazo, Angola assumirá em definitivo a liderança como principal produtor em África. Angola tem cerca de 30 bancos.

É expectável que venham a existir fusões ou aquisições?

À medida que os mercados vão amadurecendo, qualquer sistema financeiro passa por um processo de fusões e aquisições. A banca angolana, apesar da crise que tem atingido o País, tem sabido sobreviver e adaptar-se aos recursos disponíveis. Angola pode orgulhar-se de ter um sistema financeiro desenvolvido, que disponibiliza excelentes serviços de banca electrónica, constituindo uma referência no mercado africano.

As restrições cambiais, aliadas a imposições regulatórias na Europa e nos EUA, levaram a que alguns bancos de cariz internacional fossem forçados a ‘desinvestir’ do nosso mercado. Mas temos assistido a novas abordagens de bancos europeus ao nosso mercado, pelo que, a curto-médio prazo, não será de estranhar a presença de algumas insígnias europeias em Angola, que, por certo, utilizarão processos de aquisição de participações. Alguém acredita que, após as eleições que confirmarão a consolidação da democracia e a estabilidade social da nossa Nação, a banca europeia vai estar longe de um mercado essencialmente produtor de petróleo e diamantes, com fortes investimentos de algumas insígnias europeias de referência como sejam a Total, BP, Maersk Oil, ENI, Statoil, Repsol, Tullow, De Beers, entre outros tantos? A própria China já deu os primeiros passos, ao inaugurar a primeira agência do Bank of China em Angola.

O BCS está atento a oportunidades?

Vamos continuar focados em desenvolver e consolidar o nosso negócio, centrado no seu segmento de mercado, que tem permitido bons resultados, sendo certo que os nossos accionistas nunca estarão desatentos, caso surja alguma oportunidade interessante no mercado.

Como olha para a eleição de Donald Trump?

A eleição de Donald Trump, entre outros, teve uma implicação imediata na forma como os investidores internacionais passaram a olhar para as dívidas soberanas, essencialmente na Europa e no Japão, emitidas com taxas de juro negativas. De facto, em Agosto de 2016, o montante atingia 14 triliões de dólares e, em Janeiro de 2017, representava 10 triliões, uma descida de 40% a que não é alheia à valorização do dólar, que faz que as obrigações se tornem menos apelativas quando convertidas na moeda norte-americana.Isso leva-nos a pensar na eterna equação de risco e volatilidade (incerteza) que norteiam as decisões dos investidores que, como se sabe, não são a mesma coisa.

Qual a diferença?

Risco é a perda permanente de capital e, nesse aspecto, a consolidação da democracia angolana, com as eleições projectadas para este ano, transmite uma sensação de segurança aos investidores estrangeiros, enquanto a volatilidade só se transforma em risco quando o horizonte de investimento não é suficientemente longo para esperar que o mercado reconheça o justo valor do activo.

É essencial que Angola siga uma estratégia consistente a médio e longo prazos de preservação de valor. A resiliência do nosso povo deve ser vista como uma oportunidade para o investidor externo, pois “a incerteza é amiga do investidor de longo prazo”.

Angola vai atrair mais investimento externo?
Não temos dúvidas de que sim e que a dívida do Estado irá passar a ser mais transaccionada nos mercados internacionais, devido aos yieldspraticados e à diminuição acentuada do Risco Soberano. A própria recuperação do preço do Petróleo de 2016 para os níveis actuais, rondando os 50 USD por barril, contribui positivamente para a visão externa do País.

Como vê as relações entre Portugal e Angola?

Os dois países são, efectivamente, países irmãos, e constatamos esse facto quer em Angola, quer em Portugal. O que nos aproxima são séculos de convivência, alternados com algumas opiniões divergentes e críticas, mas a níveis que não os sociais e económicos. É natural que, pela história, haja sempre algum ruído, legítimo por quem o provoca, mas que não se identifica com a voz da maioria. É uma ligação inquebrável, tanto do ponto de vista social como económico. E é com base nesta relação que ambas as economias se têm apoiado e florescido e, acredito, assim se manterá.

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