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Na Argentina não se perde sono com a corrupção

15/10/2015 - 14:11, Uncategorized

O crime a economia inquietam os argentinos, que encolhem os ombros à corrupção. E é neste cenário que há eleições sem que se adivinhe o vencedor ou derrota do kirchnerismo.

Por Ana Maria Simões | Fotografia DR

Estamos a menos de um mês de eleições na Argentina. Mais de 30 milhões de eleitores vão às urnas a 25 de Outubro para eleger um presidente, um vice-presidente, 130 deputados, 24 senadores e 43 deputados do Parlasur (parlamento do Mercosor). Em algumas províncias elegem governadores e autoridades locais. Há lugares na Argentina onde os boletins de voto têm entre 80 e 120 centímetros de largura, autênticos lençóis eleitorais.
Estas eleições podem pôr fim a 12 anos de kirchnerismo – Néstor e Cristina; uma liderança carismática, centralizada e populista, e hiperpresidencialista. Ou o candidato apoiado pela actual presidente ganha as eleições – está à frente nas sondagens, ainda que não tenha a vitória garantida à primeira volta e na segunda está tudo em aberto –, e tudo ficará mais ou menos na mesma. Falamos de Daniel Scioli, que chegou ao poder através de Néstor Kirchner, em 2003, para o cargo de vice-presidente. Em 2007, foi eleito governador da província de Buenos Aires, reeleito em 2011. É o candidato da Frente para la Victoria (FPV), peronista-kirchnerista. Buenos Aires é o maior distrito do país, com 37% do eleitorado.
As pesquisas continuam a replicar os números das primárias de 9 de Agosto, quando Daniel Scioli conseguiu 38,7% dos votos. Por estes dias, as sondagens situam-no entre os 37% e os 40%, sendo que, para ser eleito, terá de ter mais de 45% dos votos ou 40% mas a 10 p.p. do segundo candidato mais votado. No segundo lugar, as sondagens colocam o candidato da coligação Cambiemos (Mudemos), Mauricio Macri, que é o chefe do governo da cidade de Buenos Aires, (para que não fique confuso… La Plata é a capital da província de Buenos Aires; Buenos Aires é a capital do país). As sondagens dão a Macri intenções de voto que o colocam entre os 26% e os 30%. A obter-se o menor número de Scioli e o maior número de Macri, teremos uma segunda volta em Novembro. Para já, um e outro têm em comum fracas habilidades oratórias, o que os distingue dos Kirchners e da sua forma populista de liderança, tão ao agrado dos argentinos que ainda vivem o mito peronista.
Como disse um historiador argentino, “o peronismo foram três anos que duraram cinquenta”.
Em terceiro lugar nas sondagens está o ex-chefe de gabinete de Cristina Fernández Kirchner, Sergio Massa, o líder da Frente Renovadora (FR), um kirchnerista dissidente, na oposição.
A relevância de Massa – que nas primárias obteve 20% da votação – é sobretudo pós-primeira volta, porque o seu apoio a Macri ou Scioli poderá ser decisivo para qualquer deles.
Há outros candidatos e por eles se distribuem votos que atenuam aspirações grandiloquentes de quaisquer destes candidatos. Massa tenta ganhar votos com uma mensagem anticorrupção, prometendo que, se ganhar, vai pôr todos os políticos corruptos na cadeia. Não é evidente que o consiga, uma coisa e outra.

A corrupção em pano de fundo
As acusações sobre vários funcionários do governo são impressionantes: o assassinato de um magistrado, Alberto Nisman, alegadamente a mando do chefe de gabinete da presidente, Aníbal Fernández; um vice-presidente a ser julgado por suborno; um eventual esquema de branqueamento de capitais que passa por um hotel de luxo de que é proprietária Cristina Fernández Kirchner; e uma infindável lista de casos.
Num outro país do mundo, como escreve o Business Insider, estes factos afundariam quaisquer ambições eleitorais. Mas, como sabemos, a Argentina não é um país igual aos outros. É mais ou menos como diz Patricio Giusto, um analista político da imprensa argentina: “Neste país, ninguém perde o sono por causa da corrupção.”
O crime e a economia são problemas reais para os argentinos, a corrupção nem por isso. Uma provável explicação, nas palavras de um eleitor resignado, é que “todos têm as mãos sujas”. Com o sistema judicial muito fragilizado, é mais fácil usar o boato e a insinuação como arma política. Etambém é isso que se tem feito na Argentina.
Quando Aníbal Fernández foi confrontado com a alegada implicação no assassinato de Nismam, respondeu que as acusações tinham motivações políticas. Quando questionado sobre o que se dizia do seu comportamento pouco ético, Daniel Scioli respondeu que a oposição tinha boas ideias. E se Scioli não está limpo, Macri também não – 2 milhões USD em contratos de adjudicação directa com uma empresa de Fernando Niembro (empresário, comentador desportivo e candidato a deputado) é o valor da mancha da sua reputação. Massa é acusado pela imprensa argentina por ter ligações ao narcotráfico e outras ilícitas minudências.
A Argentina não surge nada bem colocada nos índices internacionais de percepção da corrupção e transparência, é o 104.º em 174 países, e faz companhia ao México, à Bolívia e ao Brasil.
“A corrupção é inerente à cultura”, diz outro eleitor, que, pragmático, conclui: “Eles são todos ladrões, então temos de votar em quem rouba menos.”

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