Mercado

Na Ilha dos Cães, a história passa-se assim…

22/04/2017 - 10:15, + Mercado, Life & Arts, Uncategorized

Os cães representam a força da natureza. E são eles que fazem a justiça final, antes de os donos da terra a assumirem, num ‘the end’ muito místico. Jorge António realiza e Ana Costa produz.

Por Nilza Rodrigues | Fotografia Álvaro Isidoro, Global Imagens

Poderia ser mais um filme sobre o passado colonial. Mais umavisão, ou a mesma, de que a terra foi retirada aos seus genuínos donos, que estes foram brutalmente maltratados, e que a Natureza, ou Deus, no final, teve de repor a ordem natural das coisas. Poderia ser, mas não é.

Inspirado no romance de Henrique Abranches, Os Senhores do Areal, A Ilha dos Cães tem na componente visual a sua aliada perfeita. As paisagens de África – Angola e São Tomé – ganham outra dimensão, até no misticismo patente em todas as cenas, capaz de nos envolver de tal forma, que nem o presente dramático retira a esperança no futuro. O grande ecrã aproxima-nos, de facto, da dolorosa realidade de um povo que sofreu durante o colonialismo e que está cheio de perdas pelo caminho até chegar à independência e à

E a história passa-se assim… A maldição de uma ilha misteriosa separada por 60 anos, com flashbacks sucessivos. O patrão Américo, última participação de Nicolau Breyner numa película, dominador dos seus escravos, em particular do jovem enigmático Pêra d’Aço, aqui representado por Ângelo Torres.

Os espíritos da ilha não são indiferentes a tanta brutalidade e clamam justiça. No presente, a construção de um resort desperta a mandíbula implacável da justiça, e começam a surgir cadáveres de operários esventrados. O terror alastra-se. E Pedro M’Bala (Miguel Hurst) é enviado à ilha para resolver o problema. O alvo é a matilha, mas a matilha acaba por vencer, sobrevivendo aos sucessivos ataques, às armas, à maldade humana.

Pelo meio, uma história de amor. Com muita chama, mas sem futuro. Ela, Lena (Ciomara Morais), é uma antiga paixão e fogosa defensora dos habitantes, uma das principais instigadoras da resistência à construção do resort. Ela é que sobrevive no final. Personificando a resistência do habitante em manter a tradição, em manter os valores, em manter o que é seu.
Jorge António, o realizador, explica: “A Ilha dos Cães é muito mais que um filme sobre as memórias de um tempo histórico. É um filme que nos transporta para o imaginário africano e nos faz pensar no papel do homem na sua relação consigo próprio e com a natureza.”

Ana Costa, a produtora, acrescenta: “Desde o início que abordámos este projecto com a dedicação que a obra original de Henrique Abranches nos mereceu. A profundidade e a complexidade do tema mereciam-nos uma abordagem ousada que pudesse cativar o público, mas, sobretudo, que o fizesse re͍flectir sobre a condição humana – preocupações latentes da nossa sociedade.”

O projecto foi moroso e exigiu uma grande articulação entre todas as frentes da produção. As equipas mostraram-se incansáveis e, num esforço comum de dedicação inigualável, assumem com orgulho realizador e produtora. E, por isso, é para eles, a sua primeira e última homenagem: “Elevar a colaboração do nosso elenco, que sempre se dedicou e entregou às personagens e ao que elas representavam na história para lhes conferir a veracidade e a força que o guião lhes propunha.”
Quanto a expectativas, são muito simples. “Espero que o espectador viaje connosco em mais uma aventura que tanto nos dignificou e se embrenhe no enredo de uma história que poderá desfrutar a partir de Abril numa sala de cinema perto de si”, diz Jorge António, o realizador, que já tem na manga um novo projecto, intitulado Noyola, a primeira longa-metragem de animação portuguesa para adultos.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.