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Nkrumah Rómulo: a família é a minha grande paixão

03/09/2015 - 18:01, Uncategorized

O arquitecto e gestor de projectos no Ministério do Urbanismo e Habitação fala da carreira, dos desafios de exercer a profissão no País e da ligação forte que mantém com a família.

Nkrumah Rómulo, 41 anos,  natural da província de Luanda, onde contraiu matrimónio há 13 anos, e é pai de três filhos. Fez os estudos em Luanda até ao ensino médio, no Instituto Médio Industrial (IMEL), onde tirou o curso de Construção Civil, e posteriormente, o ensino superior, na área de Engenharia Civil. Especializou-se em Arquitectura, em Portugal. Actualmente é consultor do secretário de Estado no Ministério do Urbanismo e Habitação.
No restaurante Origami do Hotel Epic Sana, o arquitecto de profissão revelou todo esse percurso de vida, tendo como ponto de partida desta interessante conversa o seu primeiro projecto de arquitectura – lembra que foi logo após o seu regresso a Angola, em 2002. Chamou-lhe o seu “primeiro bebé”.
“Construir uma obra, ou ao menos poder participar em algum projecto, ainda que não tenha o teu cunho pessoal… Só o facto de saber que participei neste ou naquele projecto em si já é satisfatório e uma experiência muito enriquecedora”, disse.
Revela ainda que ser arquitecto em Angola exige muitos sacrifícios. A classe ainda enfrenta alguma falta de organização. Um dos dilemas, tal como aponta, são os inúmeros projectos importados. Acusa alguns colegas que, apesar de terem noção de determinado projecto importado, não se importavam de colocar a assinatura, em troca de valores monetários, e com isto o projecto passa. “O que prejudica gravemente a classe e os pequenos ateliers.”
Avança, entretanto, que a classe já está a dar alguns passos no sentido de se organizar. “Hoje, todo o arquitecto sente a necessidade de estar inscrito na ordem, coisa que antigamente não acontecia.”

Carreira profissional em crescendo

A carreira profissional de Nkrumah Rómulo, apesar de jovem, é repleta de alterações de percurso. Depois de concluir os estudos no exterior do País, regressa e começa a trabalhar num atelier de arquitectura, tendo desenvolvido a sua experiência e colocado em prática tudo aquilo que havia aprendido enquanto estudante. “Foi uma experiência muito enriquecedora, embora já tivesse noções de construção, mas estando no atelier tinha de ser mais preciso, porque era a chance de fazer projectos e participar também em alguns concursos de forma directa, pelo atelier, e por isso foi muito enriquecedor para mim”, revela.
Depois, foi trabalhar para o Estado, no Gabinete de Obras Especiais, gabinete de apoio em 2004. Trabalhou por lá durante sete anos, e o grande senão é que ali deixa de projectar. Porque é nomeado gestor de projectos desse gabinete. Aí atende sobretudo o Centro Político e Administrativo da cidade de Luanda, como por exemplo o Centro Cultural Agostinho Neto, no qual era o responsável para a área do projecto do centro. “Foi um trabalho muito enriquecedor, e hoje está aí a obra feita, é uma obra imponente e de referência”, refere com satisfação.
Uma das suas obras foi o ex-DNOI, que agora é o Comando Provincial da Polícia Nacional, defronte ao Cemitério de Santana. Um projecto que teve, segundo diz, o seu grau de complexidade e segurança que envolvia vários factores. “O projecto foi realizado, e a ondulação foi toda acompanhada por mim, em todas as fases, até à inauguração”, assegura.
Depois de sair do Gabinete de Obras Especiais, trabalhou no Angola LNG, como gestor de infra-estrutura, durante cinco anos, na área industrial da fábrica do Soyo. “Ser o gestor daquele projecto foi sem dúvida um dos pontos mais altos da minha carreira”, admite.
Apesar do reconhecimento e valor que a posição neste importante projecto lhe granjeou, teve de abandonar, porque o terceiro filho estava prestes a nascer, e optou por estar próximo da família. “A minha filosofia de vida é: primeiro vem a família”, advoga. Conta que a esposa estava muito sobrecarregada, por isso teve de abrir mão do projecto e dedicar-se mais à família.
Actualmente, é consultor do secretário de Estado do Urbanismo, no Ministério do Urbanismo e Habitação. Como consultor, afirma que às vezes se vê como se fosse uma faca de dois gumes. “Por um lado, tu olhas a cidade como arquitecto, e por outro estás num cargo, quase com responsabilidades políticas.” Afirma ainda que, estando dentro do organismo político, consegue-se influenciar mais nas políticas, e menos enquanto arquitecto. “Porque no Ministério estamos a pensar não só a cidade, mas, de uma forma mais abrangente, a pensar o País”, frisou.

Hobbies e viagens

O seu maior hobby é ouvir música enquanto está a projectar, e para relaxar também, de preferência ao som do jazz. Neste campo musical, o seu artista de eleição é o saxofonista e compositor norte-americano John Coltrane. Não é por acaso que adora instrumentos musicais de sopro. Além de viajar e de fazer fotografias. Concilia do mesmo modo outro prazer, a leitura. Ao nível doméstico, encontra em Valdemar Bastos, Filipe Mukenga e André Mingas os temas musicais de que mais gosta.
“André Mingas foi meu professor e amigo, uma pessoa com quem tive muita afinidade”, lembra.
“Sempre gostei de ler. Acompanho a bibliografia que sai na minha área para me manter actualizado”, diz. Não tem um género de livros de eleição, lê desde o científico ao literário, banda desenhada, gosta muito de romances e política. Quando pode, aprecia alguns momentos de arte e cinema.
Apesar de ter viajado por várias províncias do País, admite que conhece pouco e sente a necessidade de conhecer melhor o País. Entretanto, lembra com saudosismo as províncias de Benguela e Uíge. Esta última um pouco mais por causa da vasta vegetação e pelo “clima espectacular”. No cacimbo, a sensação térmica faz-lhe lembrar o clima europeu, diz que é muito agradável.
“Tenho uma ligação muito forte com Portugal, afinal vivi neste país uma década”, disse. Foi o seu primeiro destino, quando saiu do País para continuar os estudos. “Passei também por Holanda, Bélgica, Dubai, África do Sul e Brasil. Agora gostaria de conhecer o Leste da Europa.” As suas viagens são guiadas pelo interesse na cultura arquitectónica, dando como exemplo a vontade de conhecer a cidade de Praga, capital e a maior cidade da República Checa.

Por:Rosa Sousa | Fotografia: Njoi Fontes

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