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Telma Pedro Gomes

20/11/2015 - 14:16, Uncategorized

Em plena crise deixou um bom lugar na banca e criou uma empresa que é agora um caso de sucesso. Sons do Atlântico e Jazzing são marcas confirmadas da Showbiz. No próximo ano, haverá uma terceira. Por: Ana Maria Simões Fotografia: Njoi Fontes A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, é um dos seus livros. […]

Em plena crise deixou um bom lugar na banca e criou uma empresa que é agora um caso de sucesso. Sons do Atlântico e Jazzing são marcas confirmadas da Showbiz. No próximo ano, haverá uma terceira.

Por: Ana Maria Simões Fotografia: Njoi Fontes

A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, é um dos seus livros. É a história de quatro gerações de mulheres intensas, mágicas e nucleares numa sociedade patriarcal. A meio da conversa começámos a perceber que de certa forma é também a história de Telma, e da sua mãe.

“A minha mãe engravidou aos 22 anos, o meu pai é negro, e ela é branca, e nessa altura até a minha avó deixou de falar com ela. Em 1972, grávida de um negro… imagina… E ela sempre foi uma mulher muito independente. E a nossa história molda-nos um bocado, não é?” Diríamos que sim.

Telma Pedro Gomes nasceu em Luanda, de mãe portuguesa e pai angolano. Aos 18 anos vai estudar para Lisboa. Entra no ISEG, em Economia, e sente-se perdida. “As famílias angolanas protegem muito os filhos”, diz. E para ela, protegida em Luanda e agora em Lisboa sem amigos e sem uma estrutura familiar, os anfiteatros do Quelhas tornaram-se assustadores.

Regressou a casa sem a licenciatura. “Voltei para a Angola, não queria estudar, a minha mãe tinha um restaurante, no Cine Loanda, e não discutiu comigo. ‘Não queres estudar, vais trabalhar’, disse-me. Mas eu percebi que se ficasse nunca seria independente. Voltei para a faculdade.

Era muito boa a matemática mas muito fraca a nível teórico. Arranjei vários amigos, principalmente moçambicanos, são mais certinhos, os angolanos são mais de estar em festa.” É certinha? “[Sorridente] Não! De maneira nenhuma!”

Da banca à Showbiz

“Cheguei a Luanda e comecei a trabalhar em banca. Trabalhei no BAI, do BAI passei para o BESA, e quando estava no BESA surgiu a oportunidade para entrar no Atlântico.” Dito assim, tudo parece fácil. Telma explica: “Comecei a mandar currículos, e aqui, em Luanda, as pessoas são relativamente conhecidas. Entrei no BAI e comecei a fazer controlo de gestão.

Estamos na faculdade e temos a sensação de que as coisas não servem para nada, mas a economia deu-me uma visão muito geral. A economia coloca-nos a olhar para a realidade como um todo, e dá-nos uma visão muito prática, também.

Mas não era Economia o curso que eu devia ter tirado, hoje, aos 42 anos, sinto que sou uma pessoa mais criativa.”

Uma criatividade posta à prova ainda no Atlântico, com um projecto: “Estávamos em Lisboa, e o Dr. Carlos Silva [presidente do banco] lançou-me um desafio: vamos fazer um festival de música… assim… do zero. A primeira empresa com que reuni foi com Música no Coração, do Luís Montez, que trabalha comigo até hoje.

Pedimos apoio para o lado artístico. Entretanto, o festival ganhou espaço e deixou de fazer sentido estar dentro do banco. Surgiu a ideia de criar uma empresa”. E assim surge a Showbiz. Criar e gerir a sua própria empresa tira-lhe horas de sono? “Tira.

Estava num banco, tinha uma posição hierárquica confortável, era directora coordenadora, ia trabalhar oito horas e se as coisas não corressem bem eu tinha a sensação de que não era exactamente um problema meu.

Agora é diferente, eu vou trabalhar oito horas e se começar a correr mal tenho de trabalhar dez, quinze, vinte. Eu não durmo quando tudo começa a correr menos bem. Em Angola, fazer coisas é muito difícil, ou não temos isto ou não temos aquilo, ou tem de vir de fora.

Tem melhorado, mas muito lentamente.” Houve algum minuto de arrependimento neste processo? “Não.” E para que não fiquem dúvidas: “O meu sonho é trazer muita cultura para Angola, gostava de fazer mais shows, para os angolanos verem e ouvirem música e teatro e tudo aquilo que ajuda a mexer e a dinamizar uma sociedade.

E a bilheteira não paga um espectáculo, se não tivermos um patrocinador, não pagamos o show.” É fácil trazer cultura a angolana? “É muito fácil, mas é caro.” E agora, Showbiz A Showbiz já está a trabalhar nos Sons do Atlântico, a acontecer, em Março. Por agora tem dois palcos, mas Telma quer mais, e acredita que vai chegar lá.

E como estávamos a falar do futuro e de projectos, eis uma outra surpresa: “Queremos fazer o Sudoeste em Benguela [é um festival de Verão, na Zambujeira do Mar, em Portugal, ecléctico nos géneros musicais], queremos sair de Luanda.

Quando fizemos o business planning, colocámos o festival para este ano, não foi possível. Repare, nós iniciamos a Showbiz num ano de crise, foi uma loucura.” Do sucesso da sua empresa, o que é que sobra para si, tudo, quase tudo? “Sucesso?! Calma, ainda não sinto assim, estou numa caminhada em que preciso de ter mais consistência, mas estou orgulhosa dos passos que já demos.”

Estado civil

Telma Gomes Pedro é casada, tem uma filha com 4 anos, a Luana. “É uma criança super tagarela, um doce. Gostava de ter mais um filho.” Porque é que demorou tanto tempo a ter o primeiro filho? “Contrariamente ao que é comum na sociedade angolana, fiquei solteira até aos 37 anos…” Tinha mau feitio? “Não, não, foi um percurso, foi a necessidade de me afirmar na carreira.”

E a família não pressionou? “Se pressionou, as tias pediam: pelo menos um filho, podes não te casar, mas tem pelo menos um filho. Mas para mim um filho só fazia sentido em conjunto, nunca fez sentido de outra forma. Aconteceu…” Apaixonou-se? “Apaixonei-me como é óbvio. Engravidei, uma coisa rapidíssima, não casámos logo, fomos vivendo juntos, a Luana tinha 2 anos quando decidimos casar.”

E quando olha para o que já viveu com o seu marido gostava de ter começado mais cedo? “Não acredito nisso, acho que cada pessoa tem o seu timing, nunca achei que as relações fossem a melhor coisa do mundo, acho que uma relação é uma construção, e é dura, duas pessoas diferentes, com educações diferentes, formas de estar diferentes, é uma caminhada… é duro.”

E que expectativas tem para o seu país? “Este é o país que eu amo de paixão e tenho a esperança que tudo vai melhorar. As pessoas estão a repensar a vida. O que é que pode mudar para melhor? As mentalidades… é a melhor coisa que pode mudar.

Temos de olhar para a economia de uma outra forma, perceber o que é que pode ser feito, o que deve ser feito.” Porque é que um povo tão acolhedor não tem uma maior noção de partilha? “A nossa sociedade tornou- -se egoísta, elitista.

A sociedade cresceu e estratificou-se, o que também é normal, no entanto esta crise é boa para consciencializar as pessoas. Quisera eu que o problema de Angola fosse a falta de dinheiro, isso resolve-se.

Temos é de olhar para os valores, para a educação. Gostava que o angolano se liberasse. Porque é que tenho de esticar a carapinha? As mulheres estão oprimidas pelo padrão europeu.

Para quê esticar o cabelo? Ser africano é lindo! E ficaríamos por aqui, se já no final da conversa não tivéssemos percebido que Telma Pedro Gomes se denunciou, tem um desejo (ou um sonho): produzir um espectáculo dos U2… em Luanda.

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