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Vem e vê a guerra como ela é

25/04/2017 - 12:23, + Mercado, Life & Arts, Uncategorized

A obra de Elem Klimov é, provavelmente, o melhor e mais terrível filme de guerra alguma vez feito.

Por Paulo Narigão Reis 

A guerra é o inferno. A frase, atribuída ao general William Sherman, ͌gura da Guerra Civil americana, pairou sobre uma mão-cheia de filmes de guerra saídos de Hollywood, de “Apocalypse Now” a “O Resgate do Soldado Ryan”, de “Full Metal Jacket” a “A Barreira Invisível”. O horror – “the horror”, as últimas palavras do coronel Kurtz de “O Coração das Trevas” e, claro, de “Apocalypse Now” – vive todos os dias, das cidades sitiadas da Síria e do Iraque às limpezas étnicas do Sudão do Sul ou de Myanmar, mas nunca, desde o fim da Guerra Fria, esteve tão perigosamente perto de tornar-se global, cortesia de Donald Trump, Vladimir Putin e Kim Jong-un…

Os filmes atrás referidos exibem a guerra em todo o seu feérico horror e fazem parte, invariavelmente, de todas as listas dedicadas ao género. Menos conhecido – injustamente – é “Vem e Vê” (“Idi i Smotri”, no título original), dirigido em 1985 pelo cineasta russo Elem Klimov. E, no entanto, é provavelmente um dos melhores filmes de guerra alguma vez feitos, uma obra absolutamente devastadora pela forma com que encena a ocupação da Bielorrússia pela Alemanha nazi na II Guerra Mundial e exibe, sem condescendência, a desumanidade da guerra através do ponto de vista de uma criança. Durante mais de duas horas, assistimos à terrível perda da inocência do jovem Florya, testemunha de todos os horrores perpetrados pelos invasores, que culminam na sequência em que uma unidade das Wa͉en-SS, inspirada na infame Brigada Dirlewanger, pega fogo a uma igreja com toda a população da aldeia presa entre as quatro paredes. O impacto visual da sequência – e de todo o filme, já agora – levou mesmo a que, aquando da sua exibição, chegasse a haver ambulâncias a postos no exterior das salas de cinema onde “Vem e Vê” foi exibido, até porque muitos espectadores tinham sentido na pele o horror. O realizador Elem Klimov, ele próprio um sobrevivente do cerco de Estalinegrado, chegou a dizer: “Em criança, estive no inferno. Tivesse eu incluído tudo o que conheci e mostrado toda a verdade, nem eu teria conseguido ver o filme.”

A violência extrema, sempre presente, nunca é, contudo, gratuita. Klimov sabe o que deve e não deve mostrar. Na referida cena em que toda a população da aldeia é queimada viva, o ponto de vista é exterior.

Não vemos corpos em chamas, apenas a selvajaria dos soldados nazis, a desumanidade alcoolizada com que pegam fogo à igreja, pontuada por pormenores que são um autêntico soco no estômago. Como a mulher alemã que, dentro de um automóvel, come marisco com um desprendimento arrogante. Ou o grupo de soldados nazis que ensaia a execução simulada de Florya, encostando uma pistola à sua cabeça prematuramente grisalha com o objectivo de tirar uma fotografia.

“Vem e Vê” é, também, um filme que puxa o tapete debaixo dos nossos pés e retira-nos toda a esperança de salvação ou redenção. Não há finais felizes para a guerra, quando muito o alívio de quem sobrevive para chorar os mortos e tentar recuperar a sua humanidade. No final, quando Florya já perdeu vezes sem conta a inocência, só lhe resta a vingança, e mesmo essa é simbólica, dirigida a um quadro com uma fotografia de Hitler.

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