Mercado

Consciência ambiental longe das empresas angolanas

08/01/2018 - 10:25, Business, featured

Preocupações com ambiente e sustentabilidade ainda não chegaram à maior parte das empresas em Angola, lamenta ambientalista.

Por Edjaíl dos Santos

Hoje, no mundo dos negócios, a maior consciência ambiental nas políticas empresariais não se trata apenas de uma preocupação com as alterações climáticas ou de uma operação de marketing, mas sim de acções que se traduzam na implementação de tecnologias limpas, sistemas de eficiência energética ou na orientação para determinados produtos e serviços que ajudam em ganhos na credibilidade das companhias. Mas a verdade é que não se observa consciência ambiental em grande parte das empresas angolanas. “Não creio que seja uma genuína falta de interesse das empresas, mas sim um desconhecimento das vantagens a longo prazo dos pressupostos da economia circular. Por vezes, os investimentos iniciais nas tecnologias limpas são mais elevados do que nas tradicionais, mas as primeiras apresentam vantagens acrescidas a longo prazo que passam pela redução de custos, diminuição do passivo ambiental e contribuição para um ambiente sadio para todos”, explica o director da consultora ambiental Holísticos, Vladimiro Russo.

Leis já existem

De acordo com o também ambientalista, a implementação da legislação ambiental existente poderia obrigar muitas empresas a reverem o seu processo de produção e até a relação com os seus fornecedores, que podem não estar a respeitar o ambiente. “De modo geral, há legislação suficiente para garantir uma adequada protecção ambiental e melhoria da qualidade de vida das pessoas. Por outro lado, há recomendações em alguns sectores para a implementação de práticas mais sustentáveis, com destaque para indústria do petróleo, e, mais recentemente, um pouco sobre a gestão de resíduos”, diz. Vladimiro Russo reforça que o problema está na implementação da leie no cumprimento de tais recomendações por parte de muitas empresas onde o lucro imediato se sobrepõe ao desenvolvimento sustentável, que, para além do desenvolvimento económico, visa também um gestão ambiental e um desenvolvimento socialmente justo.

Um bom exemplo da tendência de maior credibilidade e respeito no mercado é o facto de alguns fundos de investimento investirem já em empresas ou acções em função dos seus índices de sustentabilidade. “Exemplos recentes destes casos foram os projectos de reabilitação da Barragem de Cambambe e da construção da Barragem de Laúca, onde estes projectos tiveram de cumprir, para além da legislação nacional, com a elaboração de estudos de impacto ambiental com padrões internacionais na área do ambiente e dos aspectos sociais”, sustenta o antigo director nacional do Ambiente. A estratégia ‘Angola Energia 2025’ prevê uma diversificação das fontes de produção energia, privilegiando as limpas. Mas devemos ter em atenção que a energia solar fotovoltaica ainda apresenta limitações quer em termos de armazenamento, quer de disponibilidade, pelo que a nossa matriz energética deve ser diversificada, também, com a construção de mini-hídricas. “Qualquer projecto que vise a redução da emissão de gases de efeito de estufa quer com a redução da queima de gás, quer pelos investimentos em hidroeléctricas, projectos de energia solar e eólica que venham a reduzir a queima de combustível (centrais térmicas e grupos de geradores), são bem-vindos, pois vão permitir a Angola ter uma matriz energética mais limpa”, reforça Vladimiro Russo.

Algumas medidas para promover a sustentabilidade empresarial são exequíveis, como é o caso da desmaterialização dos extractos bancários, a realização de videoconferências em detrimento das deslocações de carro e a redução dos consumos de electricidade dentro da empresa e o cumprimento de outras obrigações ambientais que obrigam muitas firmas a reverem o seu processo de produção e até a relação com os fornecedores, que podem não respeitar o ambiente.

Um exemplo de negócio verde

O Governo licitou a empresa Estrela da Floresta para gestão da exploração florestal. A firma assinou um contrato de concessão de terras a longo termo para desenvolver “uma grande plantação de fibra de madeira numa área com mais de 80 mil hectares nas províncias de Benguela, Huambo, Huíla e Bié, onde anteriormente existiam plantações de madeira para a indústria de celulose e os Caminhos-de Ferro de Benguela, na época colonial. A Estrela da Floresta já assinou os primeiros contractos de vendas, e os clientes estão a ser obrigados a fazer as colheitas obedecendo a padrões ambientais melhorados. “Durante muitos anos, não existia consideração pelas questões ambientais, sendo estas inexistentes ou ignoradas. A empresa tem clientes nacionais e internacionais”, informa a gestora de parques florestais. Nos primeiros três anos, estão a ser analisadas quais as espécies de eucaliptos que melhor se adaptam ao solo nacional. Posteriormente, o volume de plantação vai crescer, esperando-se que atinja mais de 4000 hectares até 2023, perspectiva a companhia, que espera que tal tenha um efeito directo no emprego local.

Na primeira fase, em 2017, montou–se o primeiro viveiro. Até 2020, a empresa começará a estabelecer um novo viveiro mais avançado que será capaz de produzir mais de 10 milhões de mudas por ano na sua capacidade plena. “Os projectos a longo prazo devem ser feitos com muita paciência, sem pressa, aproveitando ao máximo os avanços tecnológicos, para diminuir a margem de erro, muitos projectos faliram por causa do carácter imediatista de ter lucros”, alerta Vladimiro Russo.

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