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Jorge Líbano Monteiro: “A falta de ética nos negócios provoca problemas a todos”

14/08/2017 - 09:13, Capital Humano, featured

O secretário-geral da Associação Cristã de Empresários e Gestores veio a Luanda participar numa conferência sobre ética para colaboradores do Banco Nacional de Angola. Ao Mercado, falou do valor dos princípios nas empresas.

Por Aylton Melo | Foto Njoi Fontes

É um homem apaixonado pelas causas sociais, ou encara-as mais com sentido de missão?

Não sei se sou apaixonado, mas sempre estive ligado a causas sociais. Fiz o curso superior, como outros, mas sempre senti que tinha uma mais-valia a dar a esta área.
Foi uma aposta que fiz desde então, influenciado, claramente, pela minha educação cristã na procura de soluções para as questões sociais, e a experiência que tenho de Angola desde 1989 foi muito forte.

O Fundo Bem Comum investe em que género de projectos?

Em projectos que tenham impacto. São startups, pequenas empresas que estão a começar ou que tenham até quatro anos de vida, e há um conjunto de bancos em Portugal disponível para investir. Estamos neste momento com cinco projectos. Um é uma linguagem universal para daltónicos – ColorAdd. Há outro ligado ao ensino de línguas, uma plataforma desenvolvida pela Google, que se chama Pic. O terceiro é para a reutilização de livros escolares, e o quarto, em fase final de investimento, é um novo conceito de gelados. O último é uma empresa de programação de códigos – uma plataforma de formação intensiva de programadores, em seis meses, que depois consegue garantir emprego aos formados. Neste momento, há uma necessidade grande de programadores.

São projectos inovadores?

São projectos de uma linha nova de negócios com um cariz comercial, mas com impacto social. São empreendedores que têm ideias novas de impacto social, mas que são financiados numa lógica normal.

O interessante é poder associar o rigor económico ao impacto social. É claro que todos os projectos são, em tese, sociais. Uma empresa gerida com ética é social, mas aqui a lógica é a de reforçar este impacto.

O Fundo faz parte da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE)?

É uma parte muito pequena da Associação, que está a fazer investimentos com o Montepio Geral, Caixa Geral de Depósitos, Novo Banco, Santander e Grupo José de Mello. São montantes elevados, que não pertencem à Associação.

É supervisionado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários [CMVM, regulador da bolsa lusa), com as características típicas de um fundo de capital de risco.

Há quanto tempo existe a Associação e o que representa para os seus associados?

Existe há 65 anos e tem 1070 associados. É um espaço de liberdade e de pensamento sobre o que gostaríamos que fosse o mundo económico e empresarial. Por outro lado, é uma comunidade de pessoas, não de empresas, e isso dá-lhe uma característica muito interessante, que é não termos de estar a defender nenhum sector ou empresas. Temos a independência necessária para defendermos os valores e aquilo em que acreditamos. A ACEGE não defende os interesses dos associados, mas o que acredita ser importante para a economia, e temos a vantagem de poder dizer livremente o que achamos sobre os associados e o que estão a fazer. A ACEGE, o que faz, no fundo, é desafiar os associados a viverem a vida profissional de forma mais atenta às pessoas e aos seus problemas.

E conseguem?

Nem sempre, apesar de, na sua maioria, serem presidentes e administradores de empresas, pois o contexto não ajuda. Mas é o sentimento de missão de dar sentido à vida aos lideres empresariais, é o que faz a diferença, e acho que esta é a grande missão da ACEGE.

Acreditamos que líderes convictos na sua missão transformam as empresas, e as empresas transformadas transformam as pessoas que lá trabalham, as suas famílias e a sociedade. Um tema muito em voga mundialmente é qual o propósito do trabalho. Ajudamos os associados a alcançar este propósito.

E têm conseguido?

Penso que sim, é uma realidade muito interessante, pela sua história e trabalho desenvolvido ao longo dos anos. Não há dúvida de que empresas com líderes responsáveis têm um impacto completamente diferente.
O mundo parece carente de líderes que façam a diferença do ponto de vista ético.
As lideranças estão em crise, são uma ‘espécie’ em extinção?

Podemos dizer duas coisas: uma é que há, de facto, vários casos de escândalos na liderança. Sentimos também que as lideranças, muitas vezes, estão limitadas pela pressão do exterior, do próprio sistema, pela obrigatoriedade dos resultados. A pressão é tão grande, que, muitas vezes, coloca os gestores no limite. Os casos que nos mostram são sempre pela negativa. A comunicação social não mostra os casos positivos. As pessoas têm mais gosto por desfalques e falências. Mas não podemos pegar no todo pelas notícias que chegam. Apesar de haver empresários que cedem nas questões éticas, conheço também muitos que olham para as empresas como algo para fazer o bem e que cumprem a sua função social – não estão só a fazer dinheiro. Felizmente, ainda há muitos gestores responsáveis.

O ‘laissez passer’ de supervisores e reguladores não estará também na origem de algumas situações de falta de limites?

Hoje, na Europa – e em Portugal –, há um controlo maior sobre o que é feito. Talvez há 25 anos se fizessem coisas piores, só que ninguém sabia, não eram tão mediatizadas. Hoje, com a pressão jornalística sobre as empresas, tudo se sabe. E o que não se sabe agora vem à luz do dia poucos anos depois. Hoje, tem de se reforçar mais a ética na gestão.

As empresas devem tornar-se verdadeiras empresas, onde os trabalhadores possam crescer. Devem desenvolver-se e assumir-se no mercado, sem esquemas.Cresce a falta de confiança nas instituições falidas e recuperadas pelo Estado.

Quanto tempo leva a recuperar este sentimento, vital em todas as relações?

O problema da confiança é que demora muito tempo a ser construída, mas destrói-se num momento e, depois, para a recuperar, tem de se voltar a trabalhar muito tempo.
Mas recupera-se com trabalho, honestidade e verdade. O tempo que leva depende muito. Um líder pode fazer uma série de coisas muito interessantes, ter acções de responsabilidade social nas empresas, aparecer nas fotografias.
Mas, se um colaborador sabe que o que o gestor mostra ao exterior não é verdadeiramente quem ele é, não há confiança que resista. Ao deixar de confiar, o colaborador dessa empresa não dá o seu máximo, porque sabe que está a ser enganado pelo líder.

Como é que um líder reconquista e motiva a equipa?

Se calhar, tem de voltar à estaca zero e mostrar que está, de facto, a fazer as coisas muito bem feitas.

Uma estratégia de rebranding pode funcionar na recuperação da confiança ou da forma como uma instituição é vista?

Depende da empresa, do sector, de quem são as pessoas que estão à frente dessa empresa. Depende se é apenas um novo branding ou se a mudança também passa pelos procedimentos internos.

A ética na vida pessoal é aplicável ao mundo dos negócios?

O princípio ético é universal. É o mesmo na vida privada, nos negócios, nas questões financeiras, onde quer que seja. Tem a ver com a dignidade da pessoa, o respeito pela dignidade dos outros e a procura do bem, o que é aplicável a qualquer actividade da vida humana, embora haja questões éticas que se impõem ao mundo da indústria que são diferentes das do mundo financeiro e de outros sectores da actividade, devido às suas especificidades. Na ACEGE, desenvolvemos, há alguns anos, um conjunto interessante de temas, como saber se o amor pode ser um critério básico da gestão.

É difícil associar o amor à gestão?

É. Gerir as empresas com amor é fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem na mesma situação. Se um líder for capaz de remunerar os colaboradores como gostaria de ser remunerado se estivesse na mesma condição, está a usar um critério fantástico – isto, claro, considerando a dimensão e a capacidade da empresa, e as capacidades e méritos dos colaboradores. O mesmo acontece com os clientes e fornecedores.
Mas é um critério que pode desinstalar o próprio líder. À partida, pode parecer um tema teórico, mas, quando o lançámos aos nossos associados, fizemos um congresso com presidentes de grandes empresas e gestores de referência para explicar como o amor pode ser um critério para a forma como gerem. Mas é claro que há critérios económicos: não quer dizer que não se possa despedir se a empresa não produz.

Isto é realismo económico, não é falta de amor.

Porque é que, actualmente, se torna cada vez imperioso incutir a ética no mundo empresarial?

A falta de ética causa problemas a todos. Quando todos fazem o mesmo, chega-se a um ponto em que se gera sofrimento e despedimentos, e a economia abranda. Todos sofremos. Quando se trata de líderes, as consequências ainda são maiores. Temos de ter a capacidade de ir falando sobre estes temas e torná-los reais.

Uma coisa é sabermos da situação, mas ninguém falar – é quase um pacto negativo de silêncio. Quando começamos a falar do tema, ele torna-se mais real e percebermos que não há outro caminho senão o da ética. E aí começamos a tomar decisões que visam algumas mudanças e as pessoas deixam de fazer o que faziam de negativo. Este é o caminho.

E onde começa este caminho?

Temos de começar a questionar se alguns dos costumes e práticas que são aceites por todos são normais. Vou dar dois exemplos. Até há seis anos, muitos gestores em Portugal gabavam-se de fugirem aos impostos – era uma espécie de talento. Hoje, o Estado melhorou a máquina fiscal de tal forma, que não passa pela cabeça de ninguém fugir aos impostos, porque se sabe que há um risco muito grande de se ser apanhado. E, se não se pagar na data devida, o custo, às vezes, quase que triplica. Ao pagarmos impostos, há mais dinheiro a beneficiar todos.

E o outro exemplo?

Tem que ver com a prática que as empresas têm de pagar os impostos fora do prazo acordado. O que os gestores fazem, principalmente os financeiros, é tentar pagar o mais tarde possível, para ganharem mais algum dinheiro com transacções entretanto. Isso, para nós, é falta de ética. Ao estudarmos o caso, concluímos que um atraso generalizado nos pagamentos em 12 dias tem impacto directo em mais de 74 mil desempregados. Então, o que fizemos foi pedir aos associados para começarem a pagar a horas.

Foi difícil, mas temos mais de mil empresas que hoje se comprometem a pagar a horas, pois os gestores têm a noção exacta de que o seu comportamento pessoal e da empresa influencia o todo.

Qual o impacto mais profundo da falta de ética? Económico e financeiro, ou social?

Os dois estão interligados. Veja o exemplo do Banco Espírito Santo (BES): por causa de procedimentos contabilísticos pouco éticos, o dinheiro de poupanças desapareceu e houve fundos de investimento que perderam o que tinham ‘apostado’ no banco. E, ainda por cima, este ‘buraco’ do BES foi acompanhado por um fundo de resolução que teve um impacto também nos próprios bancos que nele participaram. Este é um impacto directo financeiro.

Quanto ao impacto social, as pessoas foram despedidas do banco. As empresas que estavam alavancadas pelo crédito do BES ficaram sem ele, e isso impossibilitou o investimentos – e, como consequência, os trabalhadores ficam pior.

Tudo está interligado…

É muito interessante perceber que vivemos num mundo sistémico, onde o que fazemos de bem e de mal tem impacto. Quando há um problema financeiro, há igualmente um problema social por detrás.

As empresas têm a função social de criar riqueza e emprego, e os bancos tem uma função ainda mais importante, que é garantir a circulação do dinheiro na economia. Quando não cumprem a sua função, sofremos todos.

Em Angola, a maior parte das pessoas e das empresas fica longos períodos sem pagar impostos.

Como se altera isto?

É preciso haver alguém que tenha credibilidade suficiente para falar sobre o tema. Prefiro sempre que seja alguém do lado do privado do que o Estado. Mas o Estado tem um papel a desempenhar para as pessoas perceberem o mal que fazem ao não pagarem a horas.

Outro mal é quando, numa empresa, o critério de entrada é o ‘amiguismo’, ou o nepotismo.

As pessoas têm de perceber que, ao contratarem alguém que não tem as competências para o cargo, estão a fazer um favor à família, mas estão a estragar a empresa onde põem essa pessoa. É um costume que existe, mas não é ético. É preciso continuar a estimular este género de debate.
Mas as empresas, hoje, têm controlos internos, sistemas de avaliação e desempenho. Isso não é suficiente?A avaliação de desempenho é fundamental. Se eu não avalio os meus colaboradores, como é que posso ajudá-los a crescer?

Outro problema é o controlo interno. Se tiver acesso ao dinheiro da tesouraria da minha empresa e bastar uma assinatura para levantar dinheiro do banco, a tentação que tenho para utilizar este dinheiro indevidamente é muito maior do que se tiver duas assinaturas na conta. Quanto menos transparência houver, mais capacidade tenho de fazer coisas que não estão de acordo com o que é definido pela empresa.

Como é que se põe um limite ao que é chamado ‘normal’ nas instituições públicas e privadas, mas, no fundo, é pouco ético?

É uma decisão, acima de tudo, pessoal. Cada líder ou gestor tem de saber até onde pode ir.

Qual é o limite?

Tem de se definir uma linha, mas, depois, daí não se deve passar. Isto acontece muitas vezes nas empresas. Isto é, o próprio sistema não-ético tenta conseguir que as pessoas todas entrem. Mas depois não conseguem sair, porque têm um passado que não permite fazer a renovação. Há um receio: se recebi em três ocasiões comissões, ao negar uma quarta posso ser denunciado. Isto acontece muito, é efeito ‘bola de neve’.
Mesmo assim, tenho de tentar sair, sob pena de me destruir.

E o tráfico de influências?

Há um pouco disto em todos os países. No fundo, quem tem poder influencia todo um sistema. As pessoas influenciam-se umas às outras e criam relações familiares, e isso forma um sistema. Aqui, é igualmente necessário estabelecer linhas ‘vermelhas’.

Acha que, em Angola, poderemos ver, em breve, a lei a sobrepor-se a costumes pouco éticos?

Algumas pessoas acham, de forma errada, que o costume é algo ético. Às vezes nem é a lei. As pessoas têm de decidir, por meio de um consenso, como vão actuar: se por costumes, ou pela lei. Haverá um dia, como está a acontecer no Brasil, em que alguém poderá dizer

“vamos parar por aqui e olhar para trás de acordo com a lei”. De repente, estará tudo fora da lei, mas de acordo com o costume. Isto poderá acontecer com Angola. Nesse dia, cada um terá de reflectir sobre se o que está a fazer está ou não de acordo com a lei.

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