Mercado

Maria da Cruz: “Temos de ser um pouco mais humildes para atrair investimento”

21/08/2017 - 09:44, Capital Humano, featured

CEO da Câmara de Comércio EUA-Angola alerta que País não pode manter-se
à margem das regras internacionais de compliance e deve facilitar vistos a
quem já tem histórico de investimentos. Temos de saber ‘vender-nos lá fora’.

Por Ricardo David Lopes | Fotografias Carlos Muyenga 

Tomou posse em Setembro de 2016. Que Câmara encontrou e que Câmara tem hoje?

A Câmara não tinha os estatutos e outros regulamentos internos actualizados. Fomos criados nos EUA, em 1990, e abrimos representação em Angola em 1998. A última vez que actualizámos os nossos documentos foi em 2002. E era necessária uma auditoria às contas, algo que entendemos ser importante para os membros verificarem como estão a ser aplicadas as suas quotas, em seu benefício.

Os estatutos e a auditoria estão prontos?

A nossa administração já aprovou os estatutos actualizados, e estamos a entregar todos os documentos necessários à empresa de auditoria, para as contas de 2016. Esperamos poder apresentar a auditoria e os estatutos na nossa reunião anual, em Dezembro. A Câmara estava muito focada no petróleo e gás, até devido ao histórico das relações entre Angola e os EUA, e entendemos que, tendo em conta a nova realidade do preço do petróleo e, sobretudo, o programa de diversificação da economia, deveríamos fazer mudanças internas na gestão.

Por isso decidiram nomear um PCA que vem da área da banca…

Sim. Ter um PCA dessa área pareceu-nos importante, pois há dificuldades de financiamentos nas pequenas e médias empresas (PME) e, sem financiamento, não se consegue fazer nada. Depois, há outras questões ligadas ao sistema financeiro angolano, nomeadamente, o problema dos pagamentos ao exterior. Acreditamos que um PCA da área da banca poderá dar mais apoio aos programas e actividades que queremos promover.

Quais são as prioridades?

Desde que fui nomeada, trouxemos uma missão empresarial a Angola e levámos algumas empresas angolanas aos EUA e à Namíbia.

As empresas dos EUA eram de que sectores?

Agricultura, construção, transportes, hotelaria e turismo, e petróleo.

A ideia seria as nossas empresas investirem na Namíbia?

A ideia é pensar ‘fora da caixa’. As empresas, sobretudo as que lidam com divisas, podem encontrar formas de fazer negócios na Namíbia, o que as ajudaria a trazer divisas para fazerem pagamentos ao exterior.

Já há frutos dessa vinda de empresas norte-americanas?

A empresa do sector dos transportes está a finalizar uma parceria com angolanos. No caso da hotelaria, está a ser finalizada uma unidade hoteleira. Mas há casos em que se optou por esperar que tome posse o novo Governo, porque são projectos que envolvem apoios públicos.

Quando comecei a reunir com membros da Câmara, verifiquei que uma das preocupações era haver projectos bons, mas falta de financiamento. Decidimos criar uma parceria para o desenvolvimento económico, que junta a Câmara e três consultoras com experiência internacional, para trazer fundos ou financiamentos a que os membros podem candidatar-se.

De onde vem o financiamento?

Dos EUA, Suíça, União Europeia e China. Trata-se de grupos financeiros que têm sede ou representação nos EUA. O objectivo é financiar projectos aqui, fora da área do petróleo. Temos quatro projectos-piloto: um na área agrícola (milho e soja), outro na hotelaria, outro na indústria de transformação e um de energia renovável, solar, no Cuanza Sul, sendo o banco local envolvido o Millennium Atlântico.

Quando vamos ver os projectos?

Dois estão quase na última fase de financiamento e depois darão os primeiros passos. Nos outros dois, tendo em conta o volume de investimento, os financiadores estão a solicitar incentivos acima do previsto na Lei do Investimento Privado (LIP), pelo que temos de esperar até haver novo Governo.

Qual o investimento total?

Entre 130 e 150 milhões USD, mas a linha que estamos a montar é acima de 2 mil milhões USD. E, como quem conhece melhor os clientes são os bancos locais, achámos importante envolver alguns, com quem estamos a reunir.

Os bancos nacionais entram com financiamento?

Não, mas, no âmbito desta parceria, há financiadores interessados em entrar no capital de bancos angolanos. Estamos a ver como organizar uma missão desses bancos a Nova Iorque, para nos sentarmos com os interessados.

Os financiadores são bancos?

Bancos, fundos de investimento directo, agências multilaterais norte-americanas e agências de crédito de exportação.

Quem tem interesse em capitalizar bancos angolanos?

Trata-se de fundos de venture capital, por exemplo.

Quando poderá ocorrer essa missão aos EUA?

Estamos a ver se poderá ser já em Setembro.

E já estão identificados os bancos angolanos em causa?

Estamos a envolver nessa questão a Associação Angolana de Bancos (ABANC).

A entrada no capital de bancos de outros países é comum?

Já aconteceu, mesmo em África – casos de Nigéria, Egipto, Marrocos e África do Sul.

Com que participações ficam?

Depende. Na Nigéria, houve casos em que atingiram 20% a 30%. Mas em Angola já há instituições com capital norte-americano.

A Chevron tinha uma percentagem do Banco BAI MicroFinanças… Isso pode ajudar as autoridades dos EUA a olharem para os bancos angolanos com outros olhos, não?

Esse é o objectivo. O que sucede, às vezes, é que há falta de informação e de diálogo. Mas claro que há necessidade de os bancos angolanos adoptarem os padrões internacionais de compliance. Por exemplo, tive há tempos uma conversa com uma administradora de um banco, a quem disse que uma das questões que se colocam é a forma como se definem as PEP(acrónimo de Politically Exposed Persons, Pessoas Politicamente Expostas) na lei angolana.

Em Angola, um PEP pode ter capital num banco, desde que não seja gestor ou administrador executivo…

Algo que os EUA não aceitam…

Não. PEP é PEP. É um padrão internacional. Mas a administradora argumentou que somos um país soberano e não podem impor-nos regras de fora. Eu respondi que, se queremos ‘jogar’ no palco internacional, é importante termos o mesmo padrão.

Angola está a perder competitividade como destino de investimento?

Angola tem de fazer mais trabalho. Aqui há de tudo: há terreno fértil, minerais por ser descobertos, e há um grande trabalho a fazer nas estradas e infra-estruturas, o que também vai reduzir os custos de investimento. Mas temos de ser um pouco mais humildes.

Conheço vários projectos de norte-americanos que decidiram ir para Moçambique, não pelo facto de o país ser melhor em recursos, mas porque aqui há muita burocracia – e isso acaba por afastar investidores. Por exemplo, se alguém já cá veio centenas de vezes, porque é que exigimos cartas de chamada para que possa voltar?

Por que é que um investidor que tem não sei quantos carimbos não pode receber na fronteira um visto de sete dias?

Era importante facilitar as entradas…

Sim. Em Moçambique, por exemplo, posso receber o visto na fronteira, tal como na África do Sul, ou na Namíbia, e isso facilita muito. Sei que Angola não pode aceitar a entrada de toda a gente, mas há casos em que não deve complicar.

Quem já cá esteve centenas de vezes está engajado com o País.

Para além da burocracia, o que mais perturba os investidores norte-americanos em Angola?

Houve uma divisão da Agência Nacional para o Investimento Privado (ANIP) em Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP) e Agência para a Promoção do Investimento e Exportações (APIEX). Eu, que estou aqui, estou confusa. Parece haver alguma duplicação de tarefas entre organismos. Sugeria que se fizesse uma streamline: que houvesse apenas uma entidade a fazer tudo, como antes. Em vez de haver duas entidades, devem existir administradores com pelouros específicos.

Não uma entidade para cada ministério. Depois, há muito boas empresas que saíram, também, devido à questão das divisas.

Quantas empresas norte-americanas saíram de Angola?

Um número considerável…

Quantas estão cá hoje?

Mais de 80.

E antes eram quantas?

Acima de 100.

E saíram sobretudo por causa da questão das divisas?

Sim. Como Câmara, temos tentado, junto do Banco Nacional de Angola (BNA), ajudar os nossos membros a conseguirem pagar algumas facturas ao exterior – há casos que vêm de 2015! Temos membros cujos fornecedores os quiseram processar, porque não entendem isto.

Tem havido abertura do BNA?

Tenho visto um esforço, sim. Outra coisa que também está a ser um pouco complicada, do ponto de vista do investimento, é o sector do petróleo e gás. Embora haja planos de diversificação, é impor- tante não esquecer este sector, porque, no fim do dia, 80% da economia é dependente dele.

As autoridades nacionais têm tratado mal este sector?

Neste plano de diversificação, está a ser esquecida a importância deste sector. Entendemos que o preço do petróleo caiu, mas há aspectos que podem ser melhorados, para que este sector seja, até, usado para alavancar outros.

Que aspectos?

Algo que tem gerado muitas reclamações é o problema das taxas que estão a ser aplicadas às petrolíferas – e não só. Há PME que se queixam de pagar mais taxas do que empresas grandes. Há empresas que dizem ser alvo de multas que não se percebem. Tem de haver melhor entendimento de qual é a estratégia. As petrolíferas norte-americanas estão cá há muitos anos e querem ficar, mas sentem-se um pouco maltratadas. Sentem que o seu papel e o seu contributo para a economia estão a ser desvalorizados.

Para além da agricultura, transportes, energia e hotelaria, que outras áreas podem vir a atrair investidores dos EUA?

Angola é um país onde muitas indústrias ainda não foram criadas.
É preciso uma revolução industrial!

Isso vai criar emprego e ajudar o País a ter mais capacidade humana – e vai alavancar a economia, para que Angola fique autónoma. Estamos situados num local estratégico, e os países à volta precisam muito de alimentos. Podemos ser o seu fornecedor, e isso é muito importante. Temos jogado um papel grande como líder na região, mas ainda podemos fazer muito mais. Somos a segunda ou terceira maior economia da África subsariana, mas acredito que podemos ser a maior de África.

Os norte-americanos querem investir aqui sozinhos, ou com sócios angolanos?

Depende. Sabemos que, na LIP, há sectores onde é necessário haver sócios nacionais, até 35%. Mas imagine um projecto, por exemplo, de energia renovável acima de 200 milhões USD. É difícil encontrar alguém disponível que não seja considerado PEP…

Os investidores – dos EUA ou outros – não querem investir com PEP…

É complicado, porque têm de cumprir as leis dos seus países, que os impedem de investir com PEP no exterior. Neste momento, há poucos empresários angolanos, no verdadeiro sentido da palavra, que não estejam ligados à política ou ao Governo. Entendemos que, durante muito tempo, o Governo foi – e continua a ser – o maior investidor e empreendedor do País, mas esperamos que, com o novo Executivo, se veja este aspecto de descentralizar e até privatizar alguns sectores, para melhorar a economia e criar um sector privado verdadeiro. O Governo deve olhar para as empresas públicas e ver quem dá e quem não dá rendimento e, se não dá, porquê. Não tem de ser tudo privatizado, mas o Governo sabe que há empresas públicas que não sentem necessidade de fazer melhor, porque sabem que, se houver problemas, o Estado ajuda!

Há algum produto que Angola exporte para os EUA?

Além do petróleo, havia o café [Cazenga], que baixou as vendas – a empresa deve ter encontrado outros mercados mais atraentes. Mas a experiência mostra que é possível. Também há um nicho muito importante nos EUA, a agricultura biológica. Sugeria que se explorasse o café, o algodão… o barril de petróleo está na casa dos 40 USD, mas 30 kg de café valem 120 USD!

Os EUA são um pouco exigentes nas suas importações…

Sim, há um processo que tem de se seguir, por isso, deve criar-se aqui uma indústria – e já estão a fazer-se algumas coisas. O Ministério da Economia, através do Instituto de Fomento Empresarial, tem promovido formações, tem falado com agricultores para estes começarem a criar cooperativas, no sentido de, juntos, poderem ter produtos de qualidade para exportar. Os EUA são um mercado muito grande, assim como os Congos, a Namíbia, a África do Sul, etc.
Que expectativas têm em relação ao novo ciclo político que se avizinha?

É um momento muito oportuno para qualquer investidor. Há uma oportunidade para melhorar…

Sim. Esta é uma boa oportunidade para ‘vender’ novamente o País. Um dos grandes problemas é a nossa imagem lá fora. Há países onde as coisas são piores, em termos de condições várias, mas eles conseguem ‘vender-se’ de tal forma, que os investidores vão para lá.
Veja a Nigéria, com o Boko Haram… os norte-americanos estão a ir para lá, mais do que para cá.Se calhar, a Nigéria sabe contrapor melhor as notícias negativas com positivas…

Sim. Espero também que, com o novo Governo, se pare com a política de cadeira vazia.

O que é isso?

Quando há actividades ou programas em que se sabe que se vai falar de forma negativa de Angola, os governantes não aparecem. Quando há convites para debates sobre compliance, corrupção, não vão, ou enviam uma pessoa júnior. E perdem uma boa oportunidade de esclarecer e explicar o que está a ser feito. Os EUA não são perfeitos, também há corrupção, também há burlados, mas as pessoas falam sobre os assuntos. Temos de admitir que temos problemas, ser honestos, e explicar o que estamos a fazer.

A nova administração Trump olha para África e Angola de forma muito diferente da anterior?

Angola é um dos três parceiros estratégicos dos EUA em África. Não tendo ainda esta administração um ponto de vista bem definido sobre África, há uma grande oportunidade para Angola se ‘vender’, para ‘vender’ a ‘nova Angola’. Nova era, vida nova.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.