Mercado

“Angola pode saltar etapas para a linha da frente”

06/03/2018 - 08:46, featured, Tecnologia

A adopção da economia das GAFA – Google, Apple, Facebook e Amazon – implica uma mudança de paradigma por parte das empresas, com foco no cliente e no produto, explica o country manager da Fabernovel, que tem vindo a fazer estudos sobre este tema e vê muitas oportunidades em África.

Por Edjaíl dos Santos

edjail.santos@mediarumo.co.ao

Angola é muito ‘fiel’ aos modelos de gestão tradicionais. Como adoptar novos métodos?

É fundamental ler o mundo, entender as empresas que se destacam pelo seu crescimento sustentável, entender a sua abordagem ao mercado e os seus modelos de gestão. Já não devemos seguir modelos que fizeram sentido no passado e que, entretanto, se tornaram obsoletos pelas transformações sociais e tecnológicas. As pessoas, hoje, têm smartphones que lhes dão acesso a tudo, que lhes permite criar uma rede, influenciar, aceder a serviços, comprar. Os desafios de Angola não são muito diferentes dos das empresas europeias ou norte-americanas, que têm de se adaptar à nova economia. A grande diferença é que Angola tem capacidade para fazer esta viragem mais rápido por não ter uma herança de sistemas informáticos complexos ou de estruturas empresariais demasiado hierárquicas.

Que alterações cruciais as GAFA fizeram para alcançar o sucesso?

Primeiro, o foco no utilizador, a observação do seu dia-a-dia – o customer journey–, que lhes permitiu identificar os problemas e as reais necessidades para a criação de produtos e serviços relevantes. Depois, a atracção dos melhores talentos para concretizar projectos e ganhar a confiança dos consumidores, comunidades, parceiros e investidores. O sucesso dos GAFA passa também pela atracção de conhecimento e por dar espaço ao empreendedorismo interno, fundamental para se ser inovador, ágil e disruptivo.

Em Angola aposta-se pouco na valorização dos clientes. Como se altera esse paradigma?

O produto é o mais importante, e conhecer o cliente é fundamental para desenhá-lo, fazê-lo evoluir, e devemos acompanhar serviços associados aos produtos são cada vez mais fundamentais na diferenciação face à concorrência. Esta visão integrada de oferta entre produto e serviço é muito importante para se perceber o cliente e recolher informação sobre a utilização, ou não, para melhorias constantes.

Qual a posição das GAFA em relação aos recursos humanos?

As GAFA e outras das empresas que se destacam olham para a captação de talento como factor fundamental para garantir o sucesso da organização. Dão espaço ao empreendedorismo dentro da empresa e promovem a possibilidade de os colaboradores desenvolverem startups, que são depois integrados na sua oferta. As equipas são multidisciplinares, o que é fundamental, pois estas empresas operam, hoje, em quase todas as indústrias. Têm colaboradores com formação e competências em engenharia, design, medicina, economia, energia, aeroespacial, telecoms, etc.

Em tempos de crise, a reinvenção é a saída…

A inovação é fundamental em qualquer momento, mas sobretudo em alturas de fragilidade ou mesmo de crise económica. Angola e todo o continente africano têm desafios diferentes da Europa, América e Ásia, mas pode estudar as soluções de outros países e adaptá-las à sua realidade, focando-se nas suas populações. Isso permitirá saltar etapas e colocar Angola na linha da frente em algumas áreas. Pode mesmo inovar até face à realidade actual de outros continentes.

Não há inovação sem o digital?

O digital já faz parte da vida das pessoas, e a inovação sempre aconteceu e está intimamente ligada ao desenvolvimento da Humanidade. Seja qual for a indústria, é fundamental. Há em Angola um grande espírito empreendedor, gestores que fizeram face a muitas dificuldades e conseguiram erguer projectos de sucesso. A tecnologia e as plataformas digitais são aceleradoras nos processos de inovação e desenvolvimento dos negócios.

A abertura ao investimento estrangeiro é essencial para seguir o modelo das GAFA…

O investimento não é apenas o financeiro, esse é importante, mas não podemos esquecer que com investimento estrangeiro vem novo conhecimento, que ajuda as empresas e as sociedades a acelerarem o desenvolvimento. Hoje, o conhecimento está disperso por todo o mundo, e os países competem não apenas para se tornarem atractivos em termos financeiros, mas pela atracção de talento. No topo da lista estão os EUA e a China, que competem por atrair estes talentos para as suas organizações.

Há empresas africanas que ‘cumprem’ as novas regras da economia?
 
Um bom exemplo é a JUMIA, um retalhista online, que opera em vários  países africanos e que já se tornou num ‘Unicórnio’, ou seja, já ultrapassou a valorização de 1000 milhões USD. Alguns analistas já lhe chamam a Amazon africana.

As GAFA já olham para África?

Muitas destas empresas – e outras líderes da nova economia – ainda não consideram o continente africano atractivo por diversos motivos, e isso é uma enorme vantagem para conseguir desenvolver o tecido empresarial sem estes players de peso, como acontece, por exemplo, na Europa. É uma questão de tempo até que estas empresas globais considerem o continente africano como uma prioridade, há obstáculos que são vantagens para as empresas locais. A Amazon, por exemplo, tem tido muitas dificuldades em afirmar-se na Índia, onde quem lidera é o playerlocal, Flipkart.

Que sectores em Angola deviam apostar mais no digital?

Desde os sectores mais estruturantes, como a educação online, telemedicina, banca, a energia solar, aos mais funcionais, como o retalho online, os pagamentos digitais, já para não falar da economia da partilha e das plataformas de auto-emprego.

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