Mercado

Importações mantêm queda no primeiro trimestre

14/08/2017 - 12:49, featured, Finanças

Angola importou menos 4% de mercadorias, em volume, entre Janeiro e Março deste ano, face ao último trimestre de 2016, de acordo com dados do Conselho Nacional de Carregadores. Economistas lembram que a quebra se deve à crise cambial, e não ao aumento de produção nacional. Angolanos devem mudar hábitos de consumo.

Por Pedro Fernandes

pedro.fernandes@mediarumo.co.ao

As importações angolanas baixaram 4% em volume nos primeiros três meses do ano face ao último trimestre de 2016, revelam dados do Conselho Nacional de Carregadores (CNC), a que o Mercado teve acesso. Entre Janeiro e Março, entraram nos portos angolanos 1.516.748,79 toneladas de bens e produtos diversos, que comparam com as 1.586.326,87 toneladas adquiridas nos últimos três meses de 2016, indica o documento.

Para o economista Galvão Branco, a quebra nas importações, que aliás tem vindo a verificar-se desde o início da crise, poderia ser uma “boa notícia” se fosse motivada pela “substituição de bens importados pela produção interna”. A redução das compras ao exterior, lembra, deriva da falta de disponibilidade cambial para garantir as transacções com os mercados e operadores externos.

“Admito que, no contexto actual, devemos assumir uma mudança dos hábitos de consumo da população, melhorando as cadeias de valor que suportam a produção nacional, sobretudo dos produtos de origem agro-pecuária, e manter e melhorar a organização da distribuição dos produtos que integram a cesta básica”, diz.

Por seu turno, José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), sublinha a importância do apoio às micro, pequenas e médias empresas para alterar o quadro nacional, dado que, nesta altura, a produção nacional apenas é satisfatória nos sectores de bebidas (excepto vinho), cimento, detergentes, pescado e ovos.

Impostos prejudicam produção nacional, diz AIA

Os impostos sobre o consumo aplicados às matérias-primas e embalagens “encarecem o pouco que se produz internamente”, destaca Severino, que alerta que, “se as grandes empresas conseguem aguentar-se, o mesmo não sucede com as mais pequenas”.

Em termos homólogos, regista-se igualmente uma quebra nas importações, de cerca de 5,1%, de Janeiro a Março deste ano, face ao mesmo período de 2016, segundo o CNC. O clinker, matéria de referência para a produção de cimento, representa 43,93% da quebra – foram importadas 161.317,3 toneladas no princípio do ano, menos 126.384,77 toneladas face ao homólogo. Neste caso, a importação poderá chegar a zero, com a entrada em funcionamento, no princípio de Julho, da segunda fábrica da Nova Cimangola, que promete atender às necessidades do País.

No volume de carga importada no primeiro trimestre deste ano, o arroz representa 10,2%, um incremento de 51,51%, segundo os dados do CNC.

Os registos do CNC colocam o Porto de Luanda a recepcionar 77,8% das mercadorias entradas no País durante o período em referência, porém, com uma baixa de 6,53% em relação ao período homólogo. Em queda estão igualmente os portos de Cabinda (-23,59%) e Lobito (-6,93%). Mas os dados do CNC dão conta de um aumento dos volumes nos portos do Namibe (+5,68%), Soyo (+12,02%) e Amboim (+861,87%).

Para Galvão Branco, o balanço entre importações e produção nacional apenas pode ser equilibrado pelo processo de reformas estruturais e investimento em capital humano e nas infra-estruturas, para que o potencial económico “concorra por si para a auto-suficiência alimentar e a plena industrialização do País”.

Mudar de vida

“O modelo económico e o nosso paradigma de vida têm de se ajustar a esta realidade e temos de ter uma visão clara do caminho a seguir na tão propalada senda da diversificação da economia”, afirma o economista e consultor.
No primeiro trimestre, a Tailândia ocupou o primeiro lugar na lista de países que mais exportaram para Angola, com 13,3% da mercadoria importada, uma variação positiva de 171,28% relativamente ao mesmo período de 2016. Portugal ocupou a segunda posição, ao exportar para Angola 196.497,22 toneladas, um incremento de 3,91% comparativamente aos primeiros três meses do ano passado.

Nova Cimangola lidera importações

As exportações do Brasil para Angola representam 12,2% do total de mercadorias entradas no País, e as da China, 10,4%.

A Coreia do Sul apresentou uma redução no volume das exportações para Angola – menos 28,02%.Do total das importações de Janeiro e Março, a cimenteira Nova Cimangola foi responsável pela aquisição de 8,76%. No entanto, face ao homólogo, a empresa importou menos 70.616,33 toneladas ( 34,71%).

A Biocom foi a segunda maior importadora de carga, com 78.314,18 toneladas (5,1% do total), enquanto a Cinfort Industrial apresentou uma quebra de menos 29,96% em relação ao período homólogo. O Entreposto Aduaneiro e a Grandes Moagens de Angola tiveram um crescimento expressivo nas importações – mais 2.296,47% e 1.875,49%,respectivamente. Ministério dos Transportes foi quem importou mais viaturas.

Na importação de veículos, o destaque vai para o Ministério dos Transportes, com a aquisição, no período em referência, de 277 unidades. O Grupo Autostar importou 182 viaturas, a Imporáfrica Veículos, 128, e a Toyota de Angola, 92.
Os Emirados Árabes Unidos foram o principal mercado de origem das viaturas importadas por Angola, com 438 veículos e uma quota de 26,97% das aquisições globais de carros nos primeiros três meses do ano.

A China vem em segundo lugar, com 400 unidades, representando 24,63% das viaturas desembarcadas. A Itália (9,11%), a Coreia do Sul (7,76%), a Bélgica (5,48%) e Portugal são os seguintes. E, depois, surgem os Estados Unidos da América (3,69%), Índia (3,57%), França (3,08%) e Japão (3,02).

Entretanto, a balança comercial angolana registou um saldo positivo de 4240 milhões EUR no quarto trimestre de 2016, um crescimento de 177% face ao mesmo período do ano anterior.
O saldo da balança comercial do quarto trimestre de 2016 foi positivo em 765,9 mil milhões Kz, mas piorou 15,7% face ao trimestre anterior, incluindo ainda reexportações e reimportações, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística.
Estes resultados são influenciados, nomeadamente, pelo comportamento do preço do petróleo, principal produto de exportação de Angola.

Só em combustíveis, Angola exportou, nos últimos três meses de 2016, um total de 1,209 biliões Kz, equivalente a 94,5% do total, sendo os restantes produtos, entre diamantes, alimentos, madeiras ou têxteis, praticamente residuais.
O País enfrenta desde finais de 2014 uma crise financeira, económica e cambial, decorrente da quebra da cotação internacional do barril de crude, com consequências na quantidade de exportações e importações, neste caso por falta de divisas.

Angola chegou a vender cada barril de petróleo, no primeiro trimestre do ano, a cerca de 30 USD, quando no mesmo período de 2014 esse valor era superior a 100 USD.

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