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Lourenço Prado Valladares “É preciso uma mudança de foco e de mentalidade muito forte”

18/12/2017 - 09:12, featured, Markets

O fundador e presidente executivo do Grupo Prado Valladares fala das dificuldades do sector imobiliário e do papel da banca na sua revitalização.

Por Aylton Melo | Fotografias Njoi Fontes

Já lá vão dois anos desde a nossa última conversa. Na altura, o  País estava quase a atingir o  pico da crise. Como é que o grupo Prado Valladares tem recuperado deste momento difícil ao longo deste tempo?

Estamos a aprender todos os dias. Todos os dias são uma história nova. Aquela foi a época do início de fecho de portas e o começo de outra, que na altura não era bem visível para as pessoas. Houve a ‘kwanzalização’ total da economia, que aconteceu não pelo reforço da moeda, mas por força das dificuldades de divisas. Então, tudo teve de se adaptar. A nossa empresa fez uma readaptação muito sofrida. Tivemos uma redução de quadros, mais forte de expatriados e menos nos nacionais. Mas temos de apostar nas oportunidades.

Ao nível do sector imobiliário, quais foram as perdas?

Há dois anos, a realidade do mercado imobiliário era outra. Na época, havia uma identificação dos clientes dispostos a investir, com uma visão de futuro. Essa perda de visão por parte de todos os investidores, adicionada à quebra da capacidade de conclusão das obras, uma vez que boa parte delas tem ser conduzida fora do País, fez com que as provisões de rentabilidade do imobiliário ficassem extremamente especulativas. Quando já estavam numa situação de normalidade, face ao período de 2009 a 2012, surgiu uma ‘queda’. Não foi um processo progressivo de desaceleração económica, foi uma ruptura. Nem todos reagem à mesma velocidade. Muitos ainda continuaram, até que seus stocks de pré-importados acabassem, outros venderam as suas posições, porque perderam o interesse pela economia de Angola. Ostock de inacabado passou a ser muito grande. Passou a haver dificuldade em fixar preços.

Como reagiram a este quadro de queda decrescente das vendas?

Não somos um promotor imobiliário clássico. Somos uma empresa de estruturação de negócios, e isso deu-nos uma rápida noção de perceber as dificuldades. Mas, mesmo assim, elas mostraram-se maiores do que estávamos a prever. Fizemos o que se chama ‘classificação de valor reverso’, ou seja, o mercado deve cair no mínimo ao valor de reposição do bem. Isto significa que estou a vender algo certo que, no mínimo, foi o que gastei para produzir. Com este valor, posso, numa fase de recuperação económica, repor esse imóvel. Esta é uma linha de corte, em que se estabelecem os resultados necessários à recuperação de investimentos. A recuperação de investimentos ficou muito bloqueada. Os anos de 2015 e 2016 foram de intenso trabalho para nos mantermos à tona. Foram períodos de sobrevivência. Neste período, alocámos todas as nossas reservas à conclusão dos nossos compromissos com os nossos clientes. E temos cumprido com todos os nossos contratos.

Está a referir-se concretamente a que contratos?

Nesse período, concluímos o Mix Center, o Boulevard, o conjunto Avenidas, a estruturação da área 1 onde está o hipermercado Kero e não parámos a construção do Metrópolis, cuja estrutura está toda pronta. Tudo o que seja possível adquirir no mercado local está a ser adquirido, mesmo que seja sobre um valor de divisa superior ao do BNA. Estamos a conseguir uma forma de financiar o exportador, através dos bancos no Brasil. E, com isto, temos condições de trazer para o importador condições de pagamentos parcelares, por via de carta de créditos. Com isto, deixámos de depender de grandes valores e conseguimos financiar a importação de 18 a 36 meses. Tanto as dirigidas quanto as operações de leilão junto aos bancos, a gaveta de aquisição e importação de equipamentos e materiais, entendemos a lógica de ela ser a última a ser atendida, e sabemos que isto é perverso para todo o processo. Porque é através da aquisição de equipamentos que temos a manutenção e geração de empregos. Então, é como se, lentamente, se asfixiasse a capacidade de produção. Esta situação não pode demorar muito tempo. Muitos dos nossos parceiros entenderam, embora não estivessem no ramo imobiliário, fazer um esforço conjunto para vencer esta situação. E fizeram, dando ao empreendimento um prazo mais dilatado. Conseguimos economias que não imaginávamos. Percebemos detalhes que eram imperceptíveis aos nossos olhos, em toda a nossa cadeia, desde a construção à área comercial. Nada ficou sem ter este impacto.

Que diferenças pode apontar entre os primeiros anos, quando conheceu o País, no  início dos anos 1990, e a situação actual?

De certa forma, revi uma Angola dos anos 1990. Era uma outra situação, em que a economia era fortemente dependente do Estado. E estava num estado de sobrevivência a meio de uma guerra. Não existia uma banca com este nível de organização. 25 anos significam acompanhar a transição de um país de uma economia central para a opção de mercado e estruturar-se com recursos de ponta. Hoje, toda a mentalidade da economia acompanhou esta aceleração dos meios económicos, que agora são usuais. Na época da guerra, percebeu-se as economias e as forças realizadoras. Foi-se percebendo que sempre houve mercado imobiliário, até mesmo naquela época, porque era o passar a ‘chave’. Era forte o mercado imobiliário, mas era informal, por isso estruturámos programas como o de Luanda Sul, para ser o princípio de desenvolvimento do mercado imobiliário e formalizador da economia. Este processo criou a capacidade de oferecer investimentos à poupança.

Acha que as soluções para a situação que o País atravessa passam mais pelo sector financeiro ou real da economia?

Penso que devemos ir buscar as forças ao sector real. A crise de Angola não é de origem interna, é causada pela conjuntura mundial do preço do petróleo. A economia de Angola tem a particularidade de ser concentrada na commodity petróleo, e esta foi uma matriz de risco terrível. Hoje também percebemos que a reacção está a ser muito rápida. Acredito que a opção pelas commoditites agrícolas, por serem renováveis, é uma opção certa e rápida, ou seja, não precisaremos de 20 anos para termos uma capacidade recuperação.
Estes investimentos no agrobusiness que começam a  surgir, darão resultados apenas médio e longo prazos…
É relativo. Da mesma forma que a estruturação de negócio na área agrária, têm um modelo. Temos o modelo de subsistência e o modelo exportador. O que é preciso é uma mudança de foco e de mentalidade muito forte.

Angola pode fazer as duas em  simultâneo?

São duas coisas deferentes que Angola pode fazer de forma muito acelerada, sem ter de passar por todas as fases. Pode dar o salto para a agricultura de alta mecanização. Então, temos de um lado as forças realizadoras de grandes áreas e um modelo que não detém a tecnologia e o capital para fazer o uso deste potencial. Angola é um país que tem tudo de uma forma exagerada.

Qual é a sua opinião em relação à Pauta Aduaneira no que diz respeito à construção?

Ainda não tenho de momento uma informação precisa. Mas a regra básica de a Pauta ser um incentivo à industrialização, para promover o sector industrial, tem a sua razão. Por isso, a taxação é mais forte sobre os produtos acabados e bastante atractivo sobre a importação de insumos, para a produção local. O que aconteceu é que o boom económico pagou os preços das taxas aduaneiras, porque os preços estavam especulados. Ninguém está a ver a Pauta Aduaneira como a dor maior. Dor maior é a imobilização das divisas. É como se a dor de estômago fosse tão grande, que nem nos lembramos da dor de dente. O que tem de existir são políticas que permitam a internacionalização das operações de Angola. Esta situação dos seguros que foram feitos à importação não levou as empresas ao default, mas criou dificuldades ao BNA.

Como é que vê as medidas recentes do BNA?

O que acho é que o presente não está a dar dados suficientes, porque, quando ouvimos discursos, não são estruturalmente diferentes, reflectem um pouco mais de acomodação. Devemos abrir a economia para atrair investimentos, porque ainda não estão a gerar-se condições para atrair investimentos – e isto não pode demorar muito tempo. Será uma medida correcta o Governo continuar a manter a sua economia interna em funcionamento, como uma questão de sobrevivência nacional, mas as carências são cumulativas. Já não há lâmpadas para se repor semáforos, porque está interrompida a importação de materiais de manutenção dos meios.

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