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Paulo Pinto de Andrade: “Angola tem de estar preparada para beneficiar da globalização”

27/12/2017 - 11:49, featured, Markets

Angola precisa de perder o medo da concorrência, defende o empresário, que lançou a Vovó Xica, em 2014, e se prepara para investir, em 2018, numa fábrica de óleo de palma em Cabinda e outra de manteiga de jinguba em Benguela.

Por Ricardo David Lopes

Intramuros lançou, em 2014, a marca Vovó Xica. O que motivou o lançamento?
Temos uma longa experiência de introdução, implementação, desenvolvimento e distribuição de marcas regionais e globais no mercado angolano. Tivemos no nosso portefólio marcas muito importantes, como Swatch, Martini, Heinz ou Monster, e na nossa cultura empresarial as marcas continuam a ser o principal activo. O contexto de pré-crise, em 2014, proporcionou-nos a oportunidade para lançar o desafio aos consumidores angolanos para comprarem a marca Vovó Xica, em vez de continuarem a consumir apenas marcas estrangeiras. Não podemos observar passivamente os nossos consumidores a comprar marcas estrangeiras sem desafiá-los a investirem nas nossas. Por isso, desde 2014 estamos a investir na Vovó Xica, e é nossa ambição que a marca venda não só cá, mas também nos países da nossa região. Queremos fazer da Vovó Xica uma marca forte para introduzirmos produtos de consumo angolanos na SADC.

Começaram com o óleo de palma…

Estamos envolvidos num projecto de produção de óleo de palma – queremos que a marca Vovó Xica recrute consumidores e integre no mercado a produção futura. O óleo de palma é um ingrediente essencial da nossa gastronomia e merece que a marca líder de mercado seja também uma marca nacional, e não uma estrangeira. Começámos a comercializar óleo de palma Vovó Xica em 2015 na distribuição tradicional e na moderna, e a marca, desde o início, dá sinais de ser muito bem acolhida pelos angolanos.

Seguiu-se o leite de coco…

Neste ano diversificámos o portefólio e introduzimos o leite de coco. Houve um período longo em que nos focámos só no óleo de palma, precisamente para dar a conhecer a marca e avançar com o projecto de produção. Era importante que os angolanos reconhecessem a importância de ter uma marca nacional numa categoria tão importante como o óleo de palma, que está praticamente entregue a marcas estrangeiras. Foi preciso fazer um trabalho longo de activação da marca e apostar, sobretudo, em distribuição capilar. Hoje, estamos em todas províncias, nos principais supermercados, nos mercados tradicionais, e isso criou condições para entrarmos noutras categorias. Neste momento, já temos 10 produtos.

Quais são os próximos?

Nesta primeira fase, estamos a apostar nas categorias em que nos vamos envolver ao nível da produção industrial e do empacotamento. Temos um projecto para instalação de uma unidade industrial de maionese com tecnologia alemã e vamos avançar com o nosso parceiro na introdução de maionese Vovó Xica na próxima fase. Em Angola há um grande consumo de maionese. Também estamos a desenvolver com o nosso parceiro da Índia a entrada da marca na produção e comercialização de manteiga de ginguba.

Qual é a componente nacional dos vossos produtos?

Os produtos de consumo têm duas componentes, as componentes tangíveis ou físicas, e as abstractas ou psicológicas. Iniciámos o desenvolvimento da produção com parceiros estrangeiros até garantirmos produção nacional, mas a Vovó Xica é uma marca angolana, e isso é muito importante para deslocar a produção para o País. No negócio de produtos de consumo, a marca é o principal activo e uma das fontes mais importantes de valor para suporte aos projectos industriais que temos em carteira.

Já têm planos concretos?

Há dois produtos que vão surgir no curto prazo, em parceria com agricultores nacionais e parceiros internacionais: o óleo de palma e a manteiga de ginguba. Nos dois casos há alguma produção agrícola local (dendém e amendoim). Apesar de os produtores de óleo de palma utilizarem métodos artesanais, pretendemos iniciar parcerias para passar às fases seguintes, onde a tecnologia e o conhecimento são fundamentais. No caso dos produtores de amendoim, também têm dificuldades em escoar a sua produção, pelo que o início do ciclo de processamento industrial dos cachos de dendém e do amendoim vai alavancar os agricultores destas duas matérias-primas.

Qual é o terceiro produto?

A maionese. Os nossos parceiros estrangeiros estão interessados em avançar connosco para a produção local, se a produção nacional de ovos e disponibilidade de óleo de soja no mercado for suficiente para sustentá-la.

Como vão fomentar a produção das matérias necessárias?

Em Angola, as províncias do Norte, a partir do Uíge até Cabinda, são propícias à plantação de palmeira. Por isso, queremos produzir óleo de palma em Cabinda. Já existe lá alguma produção agrícola e processamento artesanal, mas Cabinda ainda esta muito longe da Malásia. Desde há algum tempo que estamos a fazer diligências no sentido de envolver o governo de Cabinda e os nossos parceiros estrangeiros para implementar um projecto de óleo de palma integrado e moderno na província.

Querem exportar?

Cabinda tem uma localização estratégica, permite o rápido acesso a dois grandes mercados: a RDC e o Congo-Brazzaville, para além dos países acima do Congo, como o Gabão. A generalidade dos países africanos importa óleo de palma. Ele faz parte da cultura gastronómica desses países, onde a população tem crescido e a produção interna não tem sido suficiente para cobrir o consumo interno. Em Cabinda, como a população não é tão elevada, uma vez assegurado o consumo provincial, é expectável que a exportação para os países limítrofes ocorra com naturalidade, até porque já há uma tradição de comércio transfronteiriço muito enraizada na região e, mais cedo ou, mas tarde, Cabinda poderá obter do Governo um estatuto fiscal diferente. Cabinda pode transformar-se num centro de produção e comércio para abastecer os consumidores dos países vizinhos.

Mas vocês não têm produção própria…

Vamos ter! Mas, nesta fase, pretendemos apoiar-nos na produção existente para adicionar valor ao produto agrícola. Um litro de óleo de palma processado pode ser comercializado no prazo de dois anos, e o artesanal tem de ser vendido em meia dúzia de dias. Considero essa complementaridade de intervenientes muito importantes para modernizar a economia. Há uma experiência muito interessante na Malásia, que resolveu muitos problemas de pobreza com concessões de terras aos pequenos agricultores, que vendiam a produção às empresas de processamento. O facto de não termos ainda produção própria não nos inibe de integrar a cadeia de valor da palmeira.

Há uma oportunidade em Cabinda…

Sim, vejo uma oportunidade para implementarmos o que se fez na Malásia, ou seja, a componente agrícola do negócio (plantação) também pode servir para o combate à pobreza, atribuindo parcelas de terras mais pequenas aos camponeses e às famílias mais pobres, paralelamente à atribuição de grandes extensões de terras a empresas privadas profissionalizadas, e o processadores compram cachos de dendém aos pequenos e grandes agricultores. Assim, temos um sistema em que todos ganham.

Qual seria o investimento numa unidade de produção?

A cadeia de exploração da palmeira não é longa, e o investimento depende do número de palmeiras em estado de produção existentes na província. Mas falamos sempre de um investimento abaixo dos 10 milhões USD. Não proponho investimentos megalómanos, o importante é garantir que os agricultores tenham a quem vender os cachos de dendém que produzem. O ponto crítico é fazer um investimento continuado na melhoria da capacidade de produção, para manter um crescimento sustentado das colheitas ao longo dos anos. Atenção, que, neste negócio, todos os anos se semeiam palmeiras e todos os anos se colhem cachos de dendém.

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