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Subprime. A casa veio abaixo

22/08/2017 - 10:18, featured, Finanças

Há 10 anos, a implosão do crédito hipotecário de alto risco deixou evidentes as fragilidades, defeitos e vícios da desregulamentação do sistema financeiro global. E deu origem a uma crise mundial sem precedentes, comparável apenas à Grande Depressão de 1929. Chamaram-lhe a Grande Recessão.

Por João Paulo Vieira | Fotografia DR

Esta é a história de um mundo cor-de-rosa, onde o dinheiro se multiplicava a uma velocidade estonteante e parecia infinito. As economias cresciam – a ritmos diferentes, mas cresciam.

As taxas de juro eram baixas, e os bancos emprestavam dinheiro atrás de dinheiro. Nos EUA, como no resto do mundo, comprar casa tornou-se ‘a’ opção. Poucos preferiam pagar renda quando, com uma quantia semelhante ou até inferior, poderiam estar a comprar algo que ficaria sua propriedade e que, anos mais tarde, iria valer muito mais. Era um ciclo em que todos ganhavam. Os cidadãos conseguiam ter casa própria, os bancos ganhavam com os juros e comissões cobrados – a compradores e construtores –, a construção proliferava, e os Estados aplaudiam e apoiavam este movimento, que gerava riqueza, crescimento e receita fiscal.

O dinheiro parecia não ter fim e, quando havia dificuldade em pagar uma prestação, havia sempre um crédito ao consumo ou um cartão de crédito que permitia ultrapassar as dificuldades.

Existiam, claro, situações-limite, de incumprimento absoluto. Mas, neste mundo cor-de-rosa, os lucros proporcionados pelos pagadores eram mais do que suficientes para cobrir os prejuízos gerados pelos incumpridores, cujas casas, recuperadas pelos bancos, eram novamente vendidas, com mais-valias.
Contornar a lei

Tudo corria bem, mas os bancos acharam que podia correr ainda melhor – para o seu lado, claro – se as hipotecas pudessem ser negociadas em bolsa, potenciando ainda mais os seus ganhos. Mas não podiam. A lei não o permitia. É aqui que entra o engenho criativo dos jovens financeiros e siglas tão estranhas como MBSou CDO(ver ‘Dicionário do Subprime’). Estas arquitecturas financeiras complexas acabariam por conseguir levar à bolsa – e a uma miríade de investidores, particulares e institucionais (fundos de investimento, bancos, seguros e outros), um pouco por todo o mundo – as hipotecas que, directamente, tinham entrada vedada.

O mercado de capitais funciona à velocidade da luz e, numa fracção de segundos, estes produtos, assentes em créditos hipotecários nos EUA, espalharam-se por todo o mundo, prometendo juros atractivos.

A procura por CDOera tal, que estes produtos se tornaram escassos. Tinham um rendimento atractivo, estavam a pagar os juros prometidos e, como tal, eram tentadores. Contudo, nos EUA, praticamente todas as pessoas com capacidade para pedir um empréstimo para compra de casa já o tinham feito. E, sem novos créditos, não existem novos CDO. O que fez a banca?

Alargou os critérios de concessão de empréstimos. E é este o momento em que faz sentido falar de crédito de alto risco, ou subprime. Algumas instituições foram tão longe nesta concessão desenfreada de empréstimos a quem não tem condições para os suportar, que deram origem a uma nova estirpe: os ‘créditos NINJA’, acrónimo para No Income, No Job or Asset. Ou seja, pessoas sem rendimento, sem trabalho e sem património. Estas hipotecas também foram ‘empacotadas’ em CDO. Eis os activos tóxicos que iriam contaminar todo o sistema. Começava a formar-se a ‘bolha’ imobiliária. Com os preços das casas a atingirem níveis nunca vistos, eram cada vez menos as pessoas capazes de as comprar e, se baixa a procura, baixam os preços. De repente, milhares de famílias ficaram a pagar casas que valiam menos de metade do que tinham pago por elas. Ou seja, num eventual momento de aflição, este activo não poderia funcionar como ‘bóia de salvação’. Mesmo que vendessem o imóvel, teriam de continuar a pagar o empréstimo, pois o valor de mercado da casa tornou-se inferior ao da dívida. Com as famílias já sobreendividadas e as casas a desvalorizar, tornava–se cada vez mais difícil conseguir crédito adicional para fazer face a momentos difíceis. Muitas famílias entraram em falência, e os incumprimentos sucederam-se. Calcula-se em 9 milhões o número de pessoas que compraram casa durante o boom imobiliário e que, por isso, deixaram de ter condições de se refinanciarem ou de conseguirem pagar o que devem ao banco, porque a casa desvalorizara significativamente.

Os construtores também não conseguiam vender mais casas, e muitos deixaram de pagar os empréstimos aos bancos. E estes, se não recebem das pessoas e entidades a quem emprestaram, também não conseguem pagar os juros dos CDO vendidos. Era a ‘tempestade perfeita’. A ‘bolha’ imobiliária rebentava.

Leia mais, na edição nº117  do Jornal Mercado, já nas bancas. 

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