Mercado

Brunch With…Vladimir Russo

25/09/2017 - 11:50, + Mercado, Brunch with

Na infância queria ser jornalista e acabou por realizar parte do sonho, que depois deixou para trás para se estabelecer no que realmente lhe dá mais prazer: o ambiente.

Por Líria Jerusa | Fotografia Njoi Fontes 

Tudo começou em 1991, na altura Vladimir Russo frequentava o ensino médio no Instituto Médio Industrial de Luanda (IMIL), no curso de Electricidade, quando um grupo de jovens, do qual o nosso convidado fazia parte, preocupados com a questão ambiental, criou o projecto Juventude Ecológica de Angola.

“Sou membro fundador deste projecto e durante vários anos exerci diversas funções, desde chefe de departamento a secretário–geral e, depois, presidente do mesmo”, conta.

Um ano após a criação da Juventude Ecológica de Angola, Vladimir foi convidado para representar o País na conferência Ecológica no Rio de Janeiro, o que representou uma motivação para dar continuidade ao que já fazia.

“Apesar de ter feito o ensino médio em Electricidade e ter frequentado a faculdade de Informática, foi na Juventude Ecológica que ganhei paixão pelo meio ambiental e, no fim de 1999, decidi que era aquilo que queria fazer para o resto da minha vida”, diz.

Foi então que foi convidado a trabalhar na África do Sul, numa organização de protecção do ambiente e fauna selvagem na área de educação ambiental, onde ficou três anos. Neste período, Vladimir optou por fazer um mestrado nesta área (Educação Ambiental), juntando o útil ao agradável.

“Trabalhava com 14 países-membros da SADC, estávamos em constantes viagens para dar formações, e havia uma ligação muito forte entre Angola e Moçambique. Eu era o único quadro que falava as duas línguas, português e inglês”, recorda.

Satisfeito com o trabalho que desenvolvia dentro da organização sul-africana, decide fazer uma carreira internacional e viaja para o Quénia, no âmbito do programa das Nações Unidas para o ambiente. “Foi uma experiência bastante salutar trabalhar com todos aqueles países, organizar as conferências e participar em projectos africanos. Apesar de estar numa organização internacional, o meu foco era África.”

Em 2004, regressou à sua terra natal para dar início ao projecto de Definição de Estratégia para a Protecção da Biodiversidade. Passados alguns anos, e ainda envolvido no projecto da biodiversidade, foi convidado a ingressar nos quadros do Ministério do Ambiente, onde ficou até 2010.

Depois desta experiência, Vladimir abraçou um novo desafio, desta vez fazer parte da Fundação Kissama como director executivo para a educação ambiental, o que representou para si um grande desafio mas que abraçou com maior satisfação, tanto que lá continua. “A fundação já existia, eu ouvi falar dos trabalhos, mas não estava envolvido. E, fruto deste processo da estratégia da biodiversidade, tivemos de envolver vários parceiros, um deles era a Fundação Kissama”, explica.

Angola, referência ambiental

Vladimir Russo considera que é necessário apostar nas questões dos recursos humanos e abraçar as novas tecnologias e novos desenvolvimentos. O facto de Angola ser um país livre de energia nuclear e de carvão dá-lhe mais valências, no entanto, alerta para a necessidade de olhar para as boas práticas como meio alternativo. “Devemos apostar em energia eólica e solar, desta forma podemos tornar-nos na matriz mais verde na vertente energia a nível da SADC”, esclarece.

Acrescenta ainda que, em termos de biodiversidade, “podemos ser o país mais rico da região, a seguir à República Democrática do Congo, mas é preciso preservar, temos alicerces muito grandes, mas é preciso formar a base”, diz.

Esclarece ainda que a ausência do cumprimento das leis poderá condicionar este avanço.

Por outro lado, acredita que, com o apoio do sector privado, Angola poderá posicionar-se no topo do mundo neste aspecto, mas afirma que “tudo passa pela formação do homem, legislação nós temos, mas a aplicação é ainda bastante deficiente”, considera.

Quanto à ausência de fábricas de reciclagem no País, o ambientalista esclarece que, do ponto de vista financeiro, este tipo de investimentos acabariam por se tornar inviáveis, porque requerem uso exclusivo dos recursos naturais.

“É preciso olhar para o desenvolvimento do País no seu todo, identificando áreas e pólos industriais onde podem ser instituídas tais indústrias, desde que reúnam todos os pressupostos”, afirma, acrescentando: “Há projectos que estão a ser implementados que vão, de facto, garantir um provimento melhor da energia. E se fizermos o mesmo com a água, aí, sim, podemos começar a reciclar e exportar os nosso resíduos já transformados”, esclarece.
Análise do sector ambiental no País

Quanto à sua visão sobre o sector ambiental no País, Vladimir Russo diz que, apesar de já terem sido dados passos bastante evolutivos, é preciso reforçar apostas na legislação e no entrosamento entre as instituições. “É necessário que se criem mais limites e padrões para as emissões, ruídos, poluição sonora, é preciso estabelecer paradigmas. Por exemplo, se vamos fazer um projecto agrícola e temos uma área de 20 hectares, podemos deixar uma reserva de 10% ou 20%, não temos de utilizar o terreno na sua totalidade”, considera o nosso convidado.

Por outro lado, faz questão de chamar a atenção para as empresas, para que haja mas investimentos e esforço para o tratamento dos resíduos e afluentes por elas produzidas.

O lado pessoal, sonhos e ambições

Casado e pai de dois rapazes, Vladimir Russo nasceu na capital, município da Ingombota, há 43 anos. Ainda em tenra idade, viajou com a família para Waku-Kungo, Cuanza Norte, e aos 3 anos mudou-se novamente, desta vez para a cidade do Huambo, onde fica até completar 10 anos.
“Tenho recordações muito boas da minha infância no Huambo, posso dizer que vivi bons tempos, mas depois tivemos de regressar a Luanda em 1983, e por cá fiquei. Tornei-me num ‘city boy’, esquecendo um pouco do umbundo que aprendi quando era mais novo”, recorda.

Vladimir Russo considera-se amante da leitura, aprecia livros policiais. Declara também a sua paixão pela escrita: “Gosto de reflectir escrevendo.”
Sobre as suas ambições para o futuro, o ambientalista diz, de forma muito descontraída, que tudo o que ambiciona é ser feliz, mas também almeja que todos os angolanos possam ter melhor qualidade de vida, dentro de um ambiente saudável. “Sei que grande parte disto não depende de mim, mas faço-o do mesmo jeito”, finaliza

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.