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Curta metragem angolana concorre em festival

27/09/2017 - 10:08, + Mercado

Chama-se A Pedra e é uma reprodução cinematográfica baseada no
conto A Libélula de Ondjaki. Ana Lúcio Carvalho concretizou o projecto
e conta como foi. A 28 de Setembro no cinema S.Jorge, em Lisboa.

Por Nilza Rodrigues | Fotografia DR 

Como surgiu a ideia de levar para o cinema o conto do Ondjaki?

O Ondjaki é um dos meus autores favoritos e quando surgiu a oportunidade de adaptar um texto literário para cinema, lembrei-me imediatamente dos seus contos. Não só pela “curta” dimensão dos mesmos – que possibilitava uma melhor transposição para o formato de curta-metragem – como pelo contexto em que eles se inserem: literatura angolana contemporânea.

Escolhi o conto “A Libélula” pela ligação emocional que tinha com o mesmo – um conto dedicado ao meu pai.

Como foi concretizar essa ideia. Conte-nos tudo…

Foi um processo longo e de desconstrução. Desde a adaptação do conto para guião, à produção e realização da curta-metragem. Mais do que as contingências práticas da produção, foi um desafio tentar criar um produto distinto daquele que lhe deu origem.

Perceber o conto, o guião e a curta-metragem como três elementos distintos que não se canibalizam, mas complementam-se.

Os apoios financeiros chegaram com facilidade?

Optei por não pedir apoio financeiro e produzir este projecto de modo independente. Uma decisão que me fez sentido, pela curta-metragem ser parte integrante de um Projecto Final de Mestrado (em Ciências da Comunicação, na Universidade Católica Portuguesa).

Claro que tal só foi possível devido ao apoio e dedicação de todos os que participaram neste projecto – equipa técnica e elenco.

A escolha das personagens. Foi uma selecção difícil?

O elenco formou-se de forma muito orgânica. O Ângelo (Torres) e a Joana (Botelho) sempre foram as minhas primeiras opções para protagonistas, e fiquei muito feliz quando aceitaram o convite.

Quando falei com o Ângelo, comentei com ele que gostava muito que o Matamba ( Joaquim) também fizesse parte da equipa e tive sorte porque, na altura, eles estavam a fazer um projecto juntos e quando dei por mim não só tinha o Matamba no elenco, mas tinha também encontrado o Giovanni (Lourenço) e o Gany (Ferreira).

Tenho de realçar que foi um elenco incansável, onde a partilha e o trabalho em equipa estiveram sempre em primeiro lugar.

O que tem de real esta película? Há algo para lá de apenas ficção…

A curta-metragem é uma adaptação de um conto de Ondjaki, que por sua vez foi inspirado em factos reais. No início dos anos 2000, um jovem deu entrada numa instituição de saúde (em Luanda) com um explosivo (uma bala de M79) alojado na coxa, por explodir. Apesar do risco da operação, o jovem sobreviveu e o explosivo foi retirado com sucesso.

É angolana. Como vê o seu país neste período pós eleitoral?

Apesar de viver em Portugal, acompanho de perto o que se passa em Angola, até porque grande parte da minha família vive em Luanda. O país está a viver uma crise financeira e penso que todos os angolanos esperam que este novo mandato apresente soluções. Acho que foi muito positivo esta ter sido uma transição pacífica. Fiquei satisfeita por ver que há espaço para debate e diálogo, cidadãos cada vez mais interessados em participar na situação política e económico-social do país.

Temos enredo para um filme?

Quero muito aventurar-me a escrever ficção para Angola, mais especificamente para televisão (séries, mini-séries, novelas, etc). Quanto a filmes, espero concluir em 2018 a minha primeira longa-metragem, uma história sobre Angola, sobre passado e memória. Ainda é um projecto uma fase muito embrionária.

O que a apaixona em Angola? E o que menos aprecia?

Talvez esta seja uma resposta recheada de clichés. Angola, mais especificamente Luanda, é o sítio que chamo de casa. É a sala de família onde se fazem as sentadas de sábado. Sou apaixonada pelas pessoas descontraídas, pelo humor típico dos kaluandas, o clima tropical (aquelas chuvadas que vêm sem aviso), a comida (a moamba, o peixe/ marisco, a paracuca, a fruta!), a gíria de rua que chega a todos, independentemente da idade ou classe social. Incomodam-me os quase 7000km que me separam de casa e as gritantes diferenças sociais que existem no país.

Quais as suas expectativas para A Pedra?

Este foi um projecto de pequena dimensão, que pretendia apenas cumprir a sua função de parte prática do Projecto de Mestrado.
Fico muito satisfeita por ver que A Pedra está a passear por vários países, a participar em festivais tão distintos. Espero que este projecto sirva como alavanca para novas ideias e colaborações. E que leve o cinema em português para outras margens.

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