Mercado

As crises económicas e financeiras e a sua abordagem em termos de compressão e aquecimento: o “caso” do Brasil

14/03/2018 - 16:28, Opinião

Medidas expansionistas ou restritivas?

Por Pedro Cunha Neto/ Economista

Depois de termos visto as crises ocorridas no México e na Argentina, vamos neste artigo, e antes de sairmos do continente americano, debruçar-nos sobre a longa crise económica e financeira do Brasil. O Brasil é conhecido, quer pela sua vastidão, quer pela enorme quantidade e variedade de recursos naturais, como o ‘país-continente’. Tal como nos países já analisados, o perfil histórico da economia do Brasil não se afastou muito dos parâmetros dos similares da América Latina: ditaduras militares,populismo, incipiente gestão da republica, crónicos défices, enorme dívida externa, elevadas taxas de inflação, enfim, todo o cortejo de insanáveis políticas públicas. Após uma década de expansão económica vivida nos anos 70, com um crescimento médio de 7%/ano, graças ao forte incremento das suas exportações (agro-industriais) e à auto-suficiência alimentar, sobreveio a chamada década perdida dos anos 80. A retracção da procura mundial de bens e respectiva baixa de preços tiveram reflexos extremamente negativos na economia brasileira, que registou forte redução do PIB, aumento do défice público, e crescimento inusitado da dívida interna e externa – a primeira incentivada por políticas fiscais expansionistas, e a segunda pela elevação das taxas de juro nos mercados internacionais.

Retendo-nos na análise das crises económicas que sacudiram as economias da América Latina, nas décadas de 1970, 1980 e 1990, com alternâncias entre regimes militares e civis, reparamos que a América Latina não conseguiu demarcar-se do populismo económico, desarmando todo o continente na competição com o resto do mundo. Para alguns historiadores, o populismo económico é mais ostensivo na América Latina, por ser a detentora das mais altas taxas de desigualdade de nível de renda, quando comparadas às do resto do mundo. A génese dessa desigualdade tem as raízes na colonização europeia que, dos séculos XVI ao XIX, explorou, pela escravidão, as populações indígenas, originárias maioritariamente do continente africano. Dados do Banco Mundial revelam que ainda hoje se constatam as reminiscências desse tenebroso quadro no tamanho da desigualdade de renda inter-racial.

A pobreza extrema convive, lado a lado, com a riqueza exuberante. No entanto, o mercado das commodities voltou a ser impulsionado pelo crescimento da procura internacional, sobretudo pela crescente demanda da China nos anos 90, puxando os preços para cima, constituindo-se num período favorável para a economia brasileira graças às suas exportações. Contudo, o país não soube aproveitar este curto económico mundial para introduzir reformas, o que veio pôr a nu as suas debilidades estruturais, quando a procura mundial de bens e serviços voltou a baixar, na chamada crise de 2007/ 2008. O estímulo ao consumo no governo de Lula da Silva não foi acompanhado pelo aumento da produtividade, provocando um rombo nas contas públicas, défices, crescimento do desemprego, aumento da taxa de inflação e das taxas de juro.

Não obstante os reiterados fracassos das políticas macroeconómicas, os principais países da região formaram economistas, de capacidade reconhecida, em prestigiosas universidades americanas, que com o seu talento formularam medidas que, de certa forma, reverteram, em certos períodos, as crónicas situações de alta inflação, défices públicos e dívida externa insuportável. Fernando Henriques Cardoso, Pedro Malan e Armindo Fraga Neto, o primeiro como ministro das Finanças e depois como presidente do Brasil, e os dois últimos como ministros das Finanças, desenvolveram e implementaram, com o Plano Real, profundas reformas económicas que colocaram a economia do Brasil na senda do desenvolvimento. O modelo económico adoptado, com metas de inflação abaixo dos dois dígitos, câmbio flutuante e equilíbrio fiscal, teve resultados positivamente surpreendentes, com um confortável e consistente ‘colchão’ de reservas cambiais e invejável credibilidade internacional. Abrindo aqui um parêntesis, é de sublinhar que, por norma, nos mercados financeiros internacionais, capitaneados pelos EUA, falar da América Latina, do México, Argentina ou Brasil é falar da mesma coisa. Qualquer inadimplência ocorrida no México afecta, em maior ou menor grau, a Argentina e o Brasil. Assim, quando o México começou a dar sinais de não honrar os compromissos relativos à sua dívida externa, os mercados agiram como uma manada. Com o ‘calote’ aplicado pelo México na década de 90, o contágio chegou à Argentina e ao Brasil.

Quanto ao Brasil, os detentores dos papéis de dívida encetaram corridas para se livrarem deles, quer esvaziando as reservas internacionais para as dívidas de curto prazo, quer vendendo ao desbarato, v. g.40% do seu valor real, a eventuais interessados. Angola, sendo devedora do Brasil, e tendo tomado conhecimento de que os papéis da dívida do país estavam a ser comercializados ao desbarato (prerrogativa atribuída, exclusivamente, aos países da América Latina), negociou, com competência, graças ao alto nível dos seus técnicos, com as autoridades brasileiras a forma de beneficiar dessa facilidade, facto que foi aceite pelo Brasil. Ao longo dos anos 90, Angola foi comprando os papéis da dívida do Brasil no mercado, negociando-os depois com o país em troca da sua dívida pelo seu valor real. Angola viu-se livre de uma boa parte das suas responsabilidades para com o Brasil, poupando alguns milhões de dólares.

A recessão que atingiu quase todos os países desenvolvidos, em 2007/2008, teve e continua a ter reflexos negativos na economia do Brasil, não só na sequência desse facto, mas sobretudo pelas políticas populistas e desajustadas à realidade do país, que sopram os benefícios económicos e sociais re- sultantes do Plano Real.

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