Mercado

O agronegócio – Importância e particularidades (Parte I)

03/10/2017 - 11:38, Opinião

“Temos de perseguir a auto-sustentação através da exportação da produção excedentária.”

Por Fausto Simões

Professor titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas

O agronegócio pode ser definido como o conjunto das operações e transacções na agricultura e pecuária, desde a produção ao processamento e distribuição dos alimentos. É um sistema complexo, de que fazem parte fornecedores, equipamentos, produtores rurais, empresários agrícolas e agro-industriais, distribuidores e consumidores, para além do ambiente institucional (políticas governamentais com o respectivo ordenamento jurídico-legal).

Para os países em desenvolvimento, e para os países da África subsariana em particular, o agronegócio vem crescendo, destacando-se nas suas balanças de pagamento e comerciais e nos seus PIB.

Em Angola, essa realidade não é excepção. É do conhecimento público que, nos últimos anos, o sector não-petrolífero tem crescido mais do que o petrolífero, e uma das causas para tal realidade é a relativa atenção que o Executivo angolano tem dado a alguns operadores no sector agropecuário, que têm contribuído de forma crescente, nos últimos anos, para o crescimento do PIB, como se constata nos Orçamentos Gerais do Estado desde 2007.

Calcula-se que mais de 60% da população activa angolana viva em regiões rurais, constituindo o agronegócio um potencial nicho de oportunidades de negócio para as empresas que se têm instalando nesse sector da economia nacional.

Contudo, no sector agrário, o mercado empresarial já não é apenas um mercado de negócios: é muito mais.

Hoje, o ambiente organizacional agro-pecuário é muito mais complexo ao nível global. As preocupações nesse domínio passaram a inserir a macroeconomia com toda a envolvente de oferta e procura, de qualidade e de preços – a política, os negócios e as barreiras internacionais. As estratégias empresariais na agricultura e na pecuária, hoje, preocupam-se também com os concorrentes dentro e fora do País, com os novos concorrentes e com a relação mutuamente vantajosa na relação com os fornecedores e clientes.

Não menos importante é o tipo de tecnologia a adoptar, consentânea com o nível de formação dos técnicos e operários.

Com a presente crónica de opinião pretendemos destacar:

a)A importância do agronegócio;

b)A sua abrangência, realçando os diferentes agentes e as diferentes funções a si adstritas.

O agronegócio é importante, pois constitui o culminar de toda a cadeia produtiva agrária.

O seu grande alcance resulta do facto de ter não só um grande impacto no consumo directo das populações, mas também pelo contributo no desenvolvimento económico de qualquer sociedade.

A agricultura, a silvicultura e a pecuária, na generalidade dos países, são os responsáveis directos pelo desenvolvimento das indústrias alimentares e ligeira.

Em África, constituem de forma particular uma parcela do PIB, já que, por norma, a maior parte das economias do Continente-Berço têm o sector primário virado para o mercado externo.

A transformação do campesinato

Na Europa, o meio rural é muitas vezes definido por oposição ao meio urbano. No Velho Continente, o meio urbano é caracterizado pela elevada densidade populacional e sustentado na industrialização, comércio e serviços.

Claro que nem sempre foi assim, mas essas diferenças foram-se acentuando durante séculos, com repercussões na mudança cultural, no comportamento dos indivíduos e nas relações sociais. Em África, o processo, por norma, foi distinto.

A urbanização verificou-se, sobretudo, com a colonização do continente, com os primeiros assentamentos ao longo da costa, com objectivos comerciais, de defesa e de ocupação militar.

Conhecem-se assim, na antiguidade, rotas de mercadores europeus e, mais recentemente, de indianos na costa leste e libaneses na costa ocidental sempre viradas para a área comercial, depois do fim do tráfego de escravos.

Em África, no meio rural, o negócio assentou, sobretudo, nas grandes plantações e, mais recentemente, nas explorações mineiras, tendo-se verificado só a posteriori a ocupação administrativa e a expansão da rede comercial.

No início do séc. XX, as comunicações, as estradas e os caminhos-de-ferro foram importantes para o surgimento das vilas e colonatos. Dessa forma, registou–se a penetração administrativa e económica.

Podemos, sem receio de errar, afirmar que as diferenças entre o rural e o urbano são mais evidentes em África. Os dois meios possuem realidades diferentes no que diz respeito à ocupação do espaço, à relação entre as pessoas, às relações sociais, ao comportamento e aos ritmos de vida, à preservação dos valores culturais, ao cosmopolitismo, à solidariedade e à mestiçagem cultural.

A maior parte do meio rural africano pode ser caracterizada por baixa densidade populacional, precários acessos às comunicações e meios de transporte, e nível académico-profissional baixo, actividade agrícola de subsistência com tecnologias rudimentares, baixa produtividade e serviços sociais débeis (escolas, centros de saúde e serviços).

Como é natural, impõe-se aos actuais Estados africanos reverter gradualmente este status quo.

Investimentos de vária ordem deverão ser feitos, mas um é prioritário: a formação a todos os níveis, desde o básico, passando pelo técnico-profissional e culminando na tecnologia de ponta de nível superior, da responsabilidade das universidades, que deverão associar a investigação científica à cadeia de valor agrícola. Os objectivos a longo prazo serão obviamente as economias de escala, tendo em conta a necessidade primária de auto-suficiência alimentar quer através do consumo directo. quer através da agro-indústria.

Depois, há que perseguir os objectivos de auto-sustentação económica, através da exportação da produção excedentária.

Fausto Simões assina esta coluna quinzenalmente.

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