Mercado

O que Donald Trump nos ensina sobre os mercados financeiros

30/10/2017 - 12:15, Opinião

Ao contário do previsto, Donald Trump acabaria por ser eleito presidente

Por Gamaliel Gaspar Martins e João Lemos Esteves

Especialistas em assuntos jurídicos

É com um enorme gosto que regressamos hoje às nossas crónicas aqui no Mercado. Desde a nossa última crónica, o mundo assistiu a alterações vertiginosas de diversa índole.
Aquando do último artigo por nós assinado neste espaço, Portugal ainda se encontrava sob a ameaça de novo programa de resgate financeiro, por insucesso da aplicação do primeiro; a Europa encontrava-se sob claro domínio da Alemanha de Angela Merkel, que se havia transformado no ícone político da Europa; nos EUA, Hillary Clinton já era pré-anunciada como futura (inevitável) presidente da nação americana.

2. Atentemos, então, nesta última mudança: os EUA entraram num novo ciclo político, após um período de campanha eleitoral muito turbulento e de intensidade elevada (para recorrer à linguagem futebolística). Ao contrário do que previu a (quase) totalidade das sondagens realizadas entre Junho e Novembro do ano transacto, a eleição presidencial acabaria por ser ar rematada  por  Donald  J.  Trump,  o  empresário  bilionário do sector imobiliário de Nova Iorque. Como explicar veredicto eleitoral tão surpreendente?
As respostas têm-se multiplicado, pese embora lhes falte o distanciamento e a imparcialidade necessários. A própria Hillary Clinton publicou recentemente um livro intitulado What Happened(O que aconteceu), tentando justificar o que muitos consideram injustificável. E, porventura, o que aconteceu foi mesmo ela – e a fraqueza da sua campanha e desconfianças várias que os cidadãos norte-americanos têm em relação ao seu passado.

3. A análise racional, credível e (porque não afirmá–lo?) honesta da hecatombe eleitoral do Partido Democrata tem sido preterida pelo histerismo militante político, pela obsessão ideológica, pela pressão de certos grupos que pretendem fazer valer as suas agendas próprias. Quem perde? A vitalidade democrática do sistema político norte-americano, que sempre se caracterizou pela diversidade na unidade – e o endémico respeito (ou mesmo veneração genuína) pelas suas instituições político-constitucionais. A verdade é que a sociedade americana ainda não se resignou do término da campanha eleitoral, mantendo o mesmo tom e agressividade no confronto político –espera-se, no entanto, que tal não se traduza em bloqueio institucional permanente, susceptível de afectar a economia do país e, consequentemente, a mundial.

4. Por falar em economia, o principal foco de preocupação de diversos analistas quanto à presidência de Donald J. Trump prendia-se com a reacção dos agentes económicos e dos mercados internacionais ao discurso, ao programa político e ao estilo muito peculiar (que desafia todos os cânones da linguagem política, levando os especialistas de marketinga confrontarem- -se com o imperativo de revisão global dos ensinamentos que têm andado a propalar durante largos anos) do novo presidente dos EUA. Antes do desfecho eleitoral, reputados analistas financeiros haviam inclusive antecipado o colapso dos mercados internacionais perante o choque da vitória de Trump. Seria o fim. Seria o nosso fim.

5. Mas não foi. Bem pelo contrário: após a vitória de Donald Trump, os mercados financeiros reagiram com entusiasmo e confiança, abrindo em alta. Tendência que se tem mantido e até acentuado: o índice da Standard&Poors 500, há poucos meses, atingiu o seu ponto recorde, após vários anos; o mesmo sucedeu com o Dow Jones, que registou um valor máximo desde há muito (recorde-se que este é o indicador mais relevante da evolução dos mercados americanos, nele intervindo as mais relevantes indústrias nacionais que reflectem as tendências da economia).

6. No cômputo global, o crescimento dos mercados financeiros – desde que Donald Trump transferiu a sua residência habitual da Fifth Avenue, em Nova Iorque, para a Pensylvania Avenue, em Washington D.C., onde se situa a Casa Branca – registou o seu valor mais alto desde o final da década de 80 (início da administração de George H. W. Bush, que beneficiou do clima de optimismo e de liberalização dos mercados financeiros da administração anterior, liderada por Ronald W. Reagan). Se é verdade que a tendência de crescimento já se vinha registando na fase final da presidência de Barack Obama, não o é menos que os índices de crescimento da economia (ainda débeis, mas seguros) e a redução do desemprego (não ao ritmo desejado) nunca lograram entusiasmar os investidores em demasia: o incremento de regulamentações federais, a política fiscal e a incerteza em torno do programa de universalização dos cuidados de saúde (conhecido como Obamacare) refrearam a confiança dos mercados financeiros. Trump não herdou, destarte, um contexto tão favorável quanto George Bush havia herdado de Ronald Reagan, sendo a reacção dos mercados financeiros, por esta razão adicional, um facto (ainda mais) assinalável– ao ponto de a revista Fortuneo qualificar mesmo como o efeito Trump bump(efeito de propulsão – o ‘inchaço Trump’).

7. Dito isto, pergunta-se: então que factores explicam o entusiasmo dos investidores em torno da eleição do presidente Trump?
Ao invés do que muitos anteciparam, o programa de Donald Trump não inquietou e muito menos afugentou os investidores pelo contrário,  reforçou  a  sua  confiança e exponenciou as suas perspectivas de ganhos potenciais. De facto, os mercados tenderam a desvalorizar medidas mais controversas, como a construção do muro entre as fronteiras dos EUA e do México, a aplicação de tarifas à importação de produtos oriundos de certos mercados, a eventual guerra cambial com a China ou as leis de imigração mais restritivas – medidas essas tão duramente desaconselhadas pelas teorias económicas dominantes e que os manuais da especialidade apontam como destrutivas de valor.

8. Inversamente, os mercados internacionais reagiram às medidas de estímulo da economia e de atracção de investimento privado. Mais concretamente, a confiança dos investidores foi gerada pela expectativa do cumprimento das propostas económicas que o então candidato Trump apresentou aos eleitores americanos – quer, desde logo, no seu livro Crippled America (denominado, na segunda edição, Great Again), quer em sucessivos memorandos e relatórios que foi disponibilizando aos mediano curso da campanha, explicando os detalhes das políticas públicas a executar em caso de vitória. 9. Estas políticas públicas podem ser reconduzidas à aprovação de uma revisão global da legislação fiscal, promovendo a sua simplificação e uma redução de impostos histórica (abrangendo quer pessoas singulares, quer colectivas); a definição e execução de um plano de renovação das infra-estruturas do país, promovendo o investimento público, ao nível federal, estadual e local; a eliminação das regulações públicas (previstas em leis, regulamentos e actos administrativos…) para iniciar ou exercer determinadas actividades económicas, com a promessa de que, por cada regulamentação criada, duas seriam eliminadas e os incentivos à atracção e fixação de indústrias em território norte-americano.

9. Estas políticas públicas podem ser reconduzidas à aprovação de uma revisão global da legislação fiscal, promovendo a sua simplificação e uma redução de impostos histórica (abrangendo quer pessoas singulares, quer colectivas); a definição e execução de um plano de renovação das infra-estruturas do país, promovendo o investimento público, ao nível federal, estadual e local; a eliminação das regulações públicas (previstas em leis, regulamentos e actos administrativos…) para iniciar ou exercer determinadas actividades económicas, com a promessa de que, por cada regulamentação criada, duas seriam eliminadas e os incentivos à atracção e fixação de indústrias em território norte-americano.

10. Ou seja, ao invés dos políticos, da comunicação social e (por conseguinte) de alguns sectores da opinião pública, os mercados reagiram desvalorizando as medidas mais escaldantes do candidato Trump, preferindo, antes, relevar as suas propostas mais técnicas e sectoriais.À retórica mais ‘basista’, os mercados preferiram levar a sério  as  propostas  económicas  do  ora  presidente dos EUA – comportamento a que não será alheio o facto de muitos dos empresários e administradores de empresas e fundos (americanos ou internacionais) conhecerem pessoalmente Trump, ou não serem indiferentes às suas capacidades empresa- riais.

11. Isto leva-nos a uma reflexão assaz interessante: discute-se se os mercados financeiros são, por natureza, irracionais, movidos pelo egoísmo e pela vontade de lucrar rápida e eficientemente, desprezando outros valores e interesses (sociais ou colectivos). Ao contrário de outros agentes económicos, os mercados financeiros vivem da obsessão pelo lucro fácil, sobrevalorizando dados e factos sem qualquer critério racional. Fala-se mesmo em ‘predadores’ para descrever os investidores – e ‘darwinismo social’ para analisar os padrões de comportamento dos mercados.

12. Todavia, a reacção à eleição de Donald Trump revelou que os mercados financeiros podem ser mais racionais na forma como reagem a eventos políticos do que os próprios eleitores ou outros mercados(como o mercado da comunicação social). Efectivamente, ao passo que muitos eleitores e comentadores se desdobraram em antecipações catastrofistas, promovendo a agitação nas ruas e o risco de uma crise, nacional e internacional, sem precedentes, os mercados souberam ser lúcidos e frios na destrinça do que era crucial na agenda política do presidente Trump daquilo que era, essencialmente, retórica eleitoral. Porque ser candidato é fácil – ser presidente é bem mais complexo.

13. Uma nota derradeira para assinalar que, ao invés do que se julgava, os mercados internacionais não reagem apenas favoravelmente à agenda política baseada na abertura das fronteiras, da globalização sem limites nem critério, da democracia feita anarquia institucionalizada – os mercados financeiros (e a economia em geral) são sensíveis ao crescimento económico e às políticas públicas idóneas a promovê-lo, o que poderá implicar a intervenção do Estado na definição das prioridades colectivas.

14. A democracia e mesmo o correcto funcionamento dos mercados não dispensam a autoridade do poder político. Não há, destarte, uma fórmula mágica que garanta a plena eficiência dos mercados: as tendências do seu crescimento dependem sempre do contexto, das circunstâncias de cada momento histórico. Eis a lição que a vitória de Donald Trump nos deu para a compreensão do fenómeno económico-financeiro.

 

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