Mercado

Um 2 seguido de 12 zeros …

13/11/2017 - 15:30, Opinião

Como empresa cotada, a Saudi Aramco terá de reforçar a transparência.

 Rui Amendoeira
Advogado e especialista em assuntos petrolíferos 

Estamos algures em 2019 e pergunta-se qual é a empresa cotada mais valiosa do mundo, isto é, aquela que tem a capitalização bolsista mais elevada. Imagino que o leitor pensará num gigante tecnológico como a Apple, Alphabet (Google), Amazon ou Microsoft. Pois provavelmente estará errado. É muito possível que a empresa mais valiosa do planeta seja uma companhia petrolífera e dê pelo nome  de  Saudi  Arabian  Oil  Company  (Saudi Aramco).

A Saudi Aramco é a empresa petrolífera estatal da Arábia Saudita. É, por larga margem, a maior empresa petrolífera do mundo em volume de produção – mais de 10 milhões de barris extraídos por dia das areias do deserto – e a que dispõe de reservas mais extensas – pelo menos 260 biliões de barris de reservas recuperáveis. Começou por ser uma companhia norte-americana fundada pela Standard Oil Company of California (Socal) ao abrigo de uma concessão atribuída pelo Reino da Arábia Saudita em 1933. Cinco anos depois, em 1938, jorrou o primeiro petróleo a partir do poço Dammam n.º 7.

Durante a década de 1970, o governo da Arábia Saudita foi adquirindo (em condições de mercado) acções da empresa até se tornar o seu único accionista em 1980. Ao contrário do que sucedeu com várias outras companhias no Médio Oriente, a Saudi Aramco nunca foi nacionalizada nem objecto de qualquer outra medida de “força” pelo Estado da Arábia Saudita. Antes foi garantida uma transição de proprietário pacífica e ordenada que faz da Saudi Aramco, reconhecidamente, a mais bem-sucedida e moderna empresa petrolífera estatal do mundo.

Provocando alguma surpresa, e incómodo em sectores sauditas mais conservadores, o governo da Arábia Saudita decidiu lançar a Saudi Aramco em bolsa e vender 5% das suas acções (IPO). Espera a Arábia Saudita, porventura com algum optimismo, arrecadar cerca de 100 mil milhões USD com o IPO da Saudi Aramco, valorizando a empresa na ordem dos 2 biliões USD – 2 biliões USD é um número representado por um 2 seguido de 12 zeros (USD 2.000.000.000.000). Segundo o Banco Mundial, o Produto Interno Bruto de todos os países africanos, em 2015, foi pouco superior a 2 biliões USD (2,24). A capitalização bolsista das cinco maiores empresas petrolíferas ocidentais é pouco superior a 1 trilião USD. A Apple, a empresa mais valiosa ao dia de hoje, ainda não chegou a esse valor (cerca de 800 mil milhões USD). Quando debutar em bolsa, a Saudi Aramco ficará numa classe à parte. Por vezes, os acontecimentos que geram maior impacto no mundo petrolífero não têm natureza geopolítica, militar ou sequer de puras vicissitudes de mercado, mas são antes transformações empresariais que, à primeira vista, até podem passar despercebidas.

A mutação da Saudi Aramco de empresa estatal pura para empresa cotada e parcialmente detida por privados terá consequências profundas na configuração do mercado petrolífero, e até efeitos  políticos  e  no equilíbrio de forças entre Estados. Assim que a Saudi Aramco entrar no quadro da bolsa de Nova Iorque ou Londres (duas praças mais prováveis, sendo que a decisão ainda não foi anunciada), e parte das suas acções for detida por investidores privados, fundos de investimento, hedge funds, fundos soberanos, entre outros, a Arábia Saudita será obrigada a ter em conta os interesses desses ‘parceiros’ nas decisões que tomar e que afectam o mercado petrolífero, nomeadamente no contexto da OPEP.

Por exemplo, se a Arábia Saudita optar, num determinado momento, por não cortar a produção e ‘deixar cair’  o  preço,  desvalorizando  as  acções  da  Saudi Aramco, provocará certamente o descontentamento dos seus investidores. Sendo que não se deve menosprezar os recursos que estão à disposição de investidores privados sofisticados (mesmo que tendo apenas 5% da empresa) quando os seus interesses são atingidos: acções judiciais, pedidos de indemnização, que podem afundar ainda mais as acções de qualquer empresa.
Além de que a Saudi Aramco poderá ficar exposta  (sobretudo  se  for  cotada  em  Nova  Iorque) à legislação norte-americana que permite a qualquer cidadão accionar um Estado estrangeiro (e os seus activos) que alegadamente financie actividades terroristas. Correm presentemente nos tribunais americanos várias acções contra os interesses da Arábia Saudita alegando que o país esteve envolvido no financiamento dos atentados de 11 de Setembro. Ao colocar o seu maior e mais valioso activo – Saudi Aramco – no raio de acção de interesses privados estrangeiros, tenham eles motivações económicas, políticas ou outras, a Arábia Saudita sabe que assume um risco não negligenciável. É o preço a pagar para ‘levantar’ 100 mil milhões USD nos mercados financeiros internacionais.

Ao assumir o estatuto de empresa cotada, a Saudi Aramco será forçada a aumentar exponencialmente o seu nível de transparência. Há abundante informação pública  sobre  vários  indicadores  da  indústria petrolífera – volumes de produção, reservas, etc. – mas a verdade é que não se sabe ao certo se essas informações são fidedignas, sobretudo quando provêm de países ou quadrantes mais opacos. Costuma dizer-se que os números da indústria estão certos ‘mais bilião, menos bilião’. O stripteasefinanceiro, económico e operacional que a Saudi Aramco terá de fazer perante os mercados bolsistas internacionais vai levantar o véu sobre  aspectos  até  aqui  escondidos  da  indústria petrolífera saudita.

E se alguns indicadores e números (reservas, por exemplo), que têm sido assumidos como fidedignos pelo mercado, estiverem afinal errados?

Que efeito é que tal surpresa (negativa ou positiva) poderá provocar no mercado e no preço do barril em particular? O que é certo é que os mercados financeiros não gostam de surpresas e tendem a punir severamente quem as provoca. O (enorme) encaixe financeiro que a venda das acções da Saudi Aramco gerará destina-se a ajudar a promover e financiar a transição da Arábia Saudita, nas próximas décadas, para uma economia menos dependente do petróleo. É o caminho apontado pelo programa estratégico  “Visão  2030”  desenvolvido  pela  consultora McKinsey e endossado pelo governo saudita. Não deixa de existir alguma ironia: uma empresa petrolífera é (parcialmente) vendida para gerar receitas que permitam, por exemplo, investir em energias renováveis que promovam a transição energética da Arábia Saudita, sendo que a consecução deste objectivo irá progressivamente diminuir a importância (e valor) dessa mesma empresa. Diz a experiência que estes processos de ‘privatização’, uma vez iniciados, têm tendência para se aprofundarem. Num primeiro momento, apenas 5% da Saudi Aramco serão vendidos. Mas desconfio de que, mais tarde ou mais cedo, o governo saudita sentir-se-á tentado a vender mais fatias da empresa à medida que forem aumentando as necessidades de gerar dinheiro fresco. Quem sabe se a Arábia Saudita não substituirá o ‘vício do petróleo’ pelo ‘vício da venda da Saudi Aramco’?

 

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