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Angola e Venezuela, as duas faces da crise petrolífera

08/09/2017 - 10:46, Uncategorized

Duas economias dependentes das receitas do petróleo estão a viver a crise de maneiras diferentes. Na Venezuela, a instabilidade política e social, aliada ao centralismo económico, deixou o país à beira do colapso. Em Angola, o fortalecimento da iniciativa privada e a aposta na diversificação permitiram suavizar o impacto.

Por: Paulo Narigão

Angola e Venezuela têm, pelo menos, uma coisa em comum: a dependência das exportações de petróleo para a angariação de receita do Estado. A crise nos preços das matérias-primas, com o petróleo à cabeça, teve grande impacto na economia de ambos os países, mas a forma como as duas nações (ainda) tentam superar os problemas faz toda a diferença, com a política à frente.

O nosso País vive, desde que a guerra civil ficou para trás, em 2002, em clima de estabilidade. O mesmo não pode ser dito da nação sul-americana, que se encontra neste momento à beira do desastre económico, com a ameaça do default a pairar sobre os venezuelanos e a inflação a atingir números astronómicos, a que se junta o clima de instabilidade social e violência, à beira da guerra civil.

O que explica, então, as diferenças entre duas nações que, para muitos analistas, ficaram presas na chamada ‘maldição dos recursos naturais’? Para o economista Rui Malaquias, a política está, precisamente, à frente de todas as explicações.

“Naturalmente que a questão da República Bolivariana da Venezuela é uma questão de génese política, pois a instabilidade política é anterior à chegada de Hugo Chávez ao poder, passa pelo golpe de Estado que este líder sofreu ,em 2002, pelo seu regresso ao poder e a sua morte, bem como pela ascensão ao poder do seu vice-presidente, Nicolás Maduro em 2013”, adianta o também docente universitário, fazendo a comparação com o nosso País: “Angola, depois da independência e com a conquista da paz, manteve a estabilidade política, com quatro pleitos eleitorais, sendo três deles após a conquista da paz definitiva e sob vitória e liderança do MPLA. Tal facto retirou a componente política da equação de comparação com aquele país da América do Sul.”

A morte do chavismo

O agravamento da instabilidade política deve-se, em grande parte, à própria instabilidade do seu presidente, que permite chegar à conclusão de que o chavismo não será capaz de sobreviver à morte do seu criador. Maduro não é Chávez, e os venezuelanos há muito que o perceberam, sofrendo na pele os desvarios de um líder apostado em perpetuar o poder a todo o custo, colocando em causa as próprias instituições democráticas.

Como ficou demonstrado com a recente criação da Assembleia Constituinte, eleita para esbater o poder do Parlamento, dominado pela oposição desde as últimas legislativas. Não que, economicamente, o chavismo, o de Chávez e o do seu delfim, não estivesse condenado à nascença. “O governo venezuelano, com programas sociais financiados pela exportação do petróleo, e pela adopção de uma constante política de desvalorização da moeda sendo a Venezuela um importador nato de bens alimentares e quase todos outros, parece acreditar, erradamente, que é possível fazer crescer a economia”, aponta Rui Malaquias, que vinca as semelhanças e as diferenças entre a nação da América do Sul e Angola: “As similitudes são muitas, Angola, tal como a Venezuela, depende fortemente do petróleo para sustentar um Estado muito presente na economia, sendo que o petróleo, em ambos os países, representa mais de um terço do PIB, mais de 80% das exportações e é o principal contribuinte para a receita fiscal.”

No que às diferenças diz respeito, o economista começa, precisamente, pela questão da governação. “A diferença essencial entre as duas lideranças reside no facto de, no caso da Venezuela, a impopularidade do seu líder fazer com que as perturbações e greves gerais constantes emperrem o dinamismo económico.”

Mais do que perra, a economia da Venezuela encontra-se à beira do colapso. Há mais de um ano, pelo menos, que a ameaça de entrar em default marca a economia venezuelana. No penúltimo dia de Agosto, a Fitch baixou o rating da Venezuela, de ‘CCC’ para ‘CC’, considerando provável que o país entre em incumprimento financeiro na sequência do alargamento das sanções económicas pelos Estados Unidos.

“A degradação do rating da Venezuela reflecte a visão da Fitch de que um incumprimento financeiro é provável devido à redução nas opções de financiamento para o governo da Venezuela, no seguimento da imposição de mais sanções pelo governo norte-americano no dia 25”, escreveram os analistas da agência de notação financeira. Entre as sanções impostas pelos Estados Unidos está a a proibição de comprar novas obrigações emitidas pelo Estado venezuelano ou pela companhia petrolífera nacional.

O último ‘balão de oxigénio’ foi dado em Junho, quando o Goldman Sachs comprou obrigações emitidas pela empresa petrolífera estatal, a PDVSA. Na altura, o banco de investimento norte-americano mostrava fé na evolução da situação económica e social da Venezuela. “Nós investimos em obrigações da PDVSA, porque, como muitos no sector da gestão de activos, consideramos que a situação no país vai melhorar entretanto”, justificou o Goldman Sachs. A saúde da PDVSA está, por sua vez, pelas ruas da amargura. A dívida com fornecedores locais e estrangeiros já está perto dos 20 mil milhões USD, colocando em causa as operações petrolíferas.

Inflação galopante

No próximo ano, a Venezuela vai ter de pagar 3,7 mil milhões USD em amortizações externas, 2 mil milhões das quais representando títulos de dívida. Além da deterioração da situação política e da relação com vários países – não só os Estados Unidos como países da União Europeia –, a Venezuela deve enfrentar, também este ano, uma recessão, pelo quarto ano consecutivo, vendo a sua economia contrair-se em 5,5% do PIB, o que, apesar de tudo, já representa uma melhoria face à queda de 18,6% em 2016.

Outro problema é a inflação galopante, que poderá atingir os 1000% no final do ano. A meio de Agosto, o presidente da Comissão de Finanças do Parlamento venezuelano pintou um quadro verdadeiramente negro. “A inflação actual (últimos sete meses) é de 249%, mas a tendência é de atingir os 1000% no final do ano. É a inflação mais alta do mundo, está a moer e a destruir o salário e a capacidade aquisitiva do povo venezuelano”, afirmou

José Guerra, culpando a “criação de dinheiro inorgânico” por parte do Banco Central da Venezuela, criticando o sistema de controlo cambial que vigora desde 2003.

 

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